sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

SOBRE A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO



           Alguém já parou para pensar que qualidade na formação de alunos passa necessariamente pela qualidade na formação do profissional de ensino?
            Nestas poucas palavras será feita uma reflexão sobre a formação e as condições de trabalho que o profissional docente tem no nosso sistema de educação.
            Pressupõe-se que o professor é um profissional que está engajado na formação de uma sociedade crítica e que o trabalho a ser desenvolvido em sala de aula trará ao aluno habilidades e competências para que possa ser desenvolvido no campo social de trabalho e de convívio em sociedade.
            Para o professor, muitas vezes essa função não está muito clara. Além de não ser clara ainda esbarra-se nos problemas que essa profissão impõe para sua sobrevivência.
            Começarei pelo desenvolvimento intelectual do professor.
            A indústria do ensino superior no seu anseio por mais alunos e lucros, deixa de lado a capacitação do professor de ensino superior e superlota salas de aula com alunos oriundos de varias classes de ensino apresentando uma enorme discrepância na formação docente.
            Os futuros docentes, por sua vez, têm acesso a uma vasta rede de informação que deverá ser engolida em um curto espaço de tempo, pois o seu acesso à sala de aula só será concretizada pós diplomação.
            O professor de ensino fundamental e médio deve, via de regra, ter uma bagagem cultural condizente com o que se apresenta em sociedade. Deve freqüentar teatros, cinemas, ler livros de assuntos variados, estar antenado em atualidades e dominar o seu conteúdo a ser trabalhado em sala de aula.
            Dentro do nosso sistema, um professor que queira ter realmente acesso a esses bens de informação e de formação contínua deverá incluir na sua cesta básica:
            Jornal de atualidades, revista de sua área de formação, livro,  internet banda larga, revista de educação, cinema, teatro e centros de exposições. Fazendo um calculo médio, o professor deverá destinar, do seu salário, aproximadamente R$ 250,00 com esses bens imateriais.
            Vale lembrar que, para um professor que ganha em média R$ 1.000,00 isso representa 25% do seu salário. O que torna impraticável em muitos dos casos.
            Para um professor ter esses meios de formação contínua, o mesmo teria que ganhar algo em torno de R$ 2.500,00 a R$ 3.000,00. Para isso o profissional deverá se desdobrar e trabalhar nos três períodos e em escolas diferentes (particulares inclusive).
            O professor de carreira pública não tem condições de se atualizar dessa forma. Primeiramente porque o governo não oferece esses meios facilitados para os professores, segundo porque muitas vezes, os próprios professores não têm a cultura de consumir esse tipo de produto. Sendo assim, o aluno, que não vê o seu professor estudando, vai estudar para que?
            Outro problema que vivenciamos é a superlotação de sala. Do ensino fundamental ao superior, o tratamento dispensados aos alunos é o mesmo tratamento de massa aplicado desde sempre na escola. Turmas de 40 alunos e aulas de 50 minutos (salvo no ensino infantil e superior) torna-se humanamente impossível que o professor tenha disposição e disponibilidade para atender aluno por aluno, sanar suas dúvidas e corrigir atentamente todos os trabalhos e avaliações.
            Pense em uma professora que tem como função alfabetizar alunos. Imagine 40 alunos em uma sala de aula sendo todos alfabetizados ao mesmo tempo. Como essa professora procede? Qual é a magia que ela aplica para tentar alfabetizar pelo menos 50% desse contingente? Não é de se espantar que as crianças chegam no 6º ano do ensino fundamental sem saber ler e escrever. Não há trabalho milagroso que faça esta magia.
            A alfabetização vai ser dada ao longo do tempo e ao chegar no ensino médio o aluno poderá ser classificado como semi-alfabetizado.
            Alguns perguntam: e a repetência? Não é para isso que serve?
            Até seria, se não fosse os ciclos de aprendizagem que se transformou em aprovação automática. Caso o aluno tenha presença, será automaticamente empurrado para o ano seguinte.
            Há pouco tempo, a secretaria de estado da educação de São Paulo tem divulgado as metas para o desenvolvimento da educação. Pois bem, vejamos:
            1º Todos os alunos de 8 anos plenamente alfabetizados:
            Cabe destacar que por mais boa vontade que este os queiram, enquanto continuar com 40 alunos em uma sala de aula, torna-se humanamente impossível a alfabetização. Nenhum teórico da educação até hoje encontrou a formula para tal milagre. Cabe lembrar que alfabetizar não é ensinar a fazer cópia e sim, pelo menos, ouvir uma palavra e saber transcreve-la conhecendo o seu significado. Não raro, encontra-se alunos do ensino médio com defasagem de alfabetização.
            2º Redução de 50% das taxas de reprovação da 8º série:
            Como já tratado acima, reprovar não é punir, e sim oferecer novamente uma oportunidade de ensino. Lembremos que, ao chegar ao 9º ano do ensino fundamental (ou 8º série) o aluno já trabalha com conteúdos mais complexos que exige maior concentração e atenção de sua parte. Se este teve uma alfabetização deficitária e sempre foi feito vistas grossas a essa deficiência, na 8º série o aluno vai ser reprovado ou novamente vai ser empurrado para o ensino médio.
            3º Redução de 50% das taxas de reprovação no ensino médio:
            Transcrevo aqui as palavras acima e acrescento: se o aluno nunca teve a cultura de estudar, porque ele deve fazê-lo agora? O que vai motivá-lo?
            Ou melhora-se a estrutura da qualidade de ensino, ou as aprovações para cumprir essa meta será por decreto.
            4º Implantação de programas de recuperação de aprendizagem nas séries finais de todos os ciclos de aprendizagem (2ª, 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio):
            Deve-se deixar bem claro neste ponto o que é aprendizagem e o que é recuperação. Como recuperar? O que deve ser trabalhado e como deve ser trabalhado? A recuperação seria a retenção e memorização de conteúdos ou o desenvolvimento de habilidades?
            Ora, se desde o início a sala de aula fosse reduzida, não haveria necessidade de gastar mais dinheiro com aulas de reforço, que muitas vezes conta com profissionais não capacitados para esse tipo de trabalho que envolve metodologias diferenciadas do ensino de massa.
            5º Aumento do 10% nos índices de desempenho do Ensino Fundamental e Médio nas avaliações nacionais e estaduais.
            Melhorar o desempenho nessas formas de avaliações significa tirar melhores notas. Pois bem, aqui temos um ponto polêmico que merece melhor atenção. Melhorar as notas pode ser entendido como baixar a qualidade da avaliação. E baixar a qualidade da avaliação significa maquiar um dado.
            6º Atendimento de 100% da demanda de jovens e adultos de Ensino Médio com currículo profissionalizante diversificado.
            Atender todo o público significa construir mais escolas e mais salas de aulas, como também pode significar aumentar a quantidade de alunos na sala de aula. Quanto ao currículo profissionalizante, muito deve ser feito: laboratório, ampliação de espaços, elaboração de material e acesso a informações e professores aptos para tais aulas.
            7º Implantação do Ensino Fundamental de nove anos, com prioridade à municipalização das séries iniciais (1ª a 4ª séries).
            No nosso entender, municipalizar é transferir o problema, é deixar de trazer o compromisso para si e transferir para outro, se esse outro aceita o problema, ele deve ter estrutura para atende-lo. Pois a cobrança será maior. Cabe salientar que, se a prioridade é municipalizar as séries iniciais, as metas 1º e parte da 4º deixa de ser responsabilidade estatal para se tornar municipal.
            8º Programas de formação continuada e capacitação da equipe.
            Formar um professor não significa necessariamente dar diplomas, acima já discutiu-se a formação continua de um profissional. Mas se essa formação será em sala com diploma, temos outro problema. O horário. O que fazer com o professor que se desdobra em várias escolas para garantir um salário digno para sua família? Uma solução é impedir que ele tenha outras escolas? Assim como o policial, o professor não poderá ter dois empregos?
            9º Descentralização e/ou municipalização do programa de alimentação escolar nos 30 municípios ainda centralizados.
            Não sabemos aonde o programa de alimentação infere na aprendizagem, portanto, esta meta é puramente burocrática e não compete sua discussão neste texto.
            10º Programa de obras e melhorias de infra-estrutura das escolas.
            Para melhorar a infra-estrutura, o governo deve estabelecer critérios e fazer as devidas comparações (antes e depois da reforma) afim de evitar perca de recursos. Lidar com dinheiro é extremamente perigoso pois a própria burocracia criada pelo estado serve para dar margens à corrupção.
            Por fim, melhorar a qualidade de ensino não significa apenas colocar o professor na escola, podar suas faltas ou melhorar apenas o seu salário. Melhorar a qualidade de ensino requer uma série de medidas (simples se pensar um pouco), mas trabalhosa, pois é necessário mexer em todo o sistema estadual.

IVAN CLAUDIO GUEDES 



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