sábado, 18 de maio de 2013

PORQUE O PROFESSOR PRECISA ESTUDAR?

Artigo originalmente publicado no Jornal Gazeta Valeparaibana, edição 66 - Maio 2013 - p.9.


Corintiano, palmeirense, são paulino, santista, flamenguista, gremista... Quando se pergunta ao cidadão “qual 
é o seu time?” Todo mundo sabe responder. Católico, evangélico, umbandista, kardecista, muçulmano... Quando perguntado sobre a religião, sempre está na ponta da língua. 

E o professor? 

Quando perguntam sobre qual filosofia da educação, ou qual “ideologia pedagógica” este representa? Ai faltam palavras. Palavras e conhecimento. Salvo os cursos de Pedagogia, os cursos de formação de professores não abordam essa discussão em sala de aula. Consequentemente os professores acabam por serem empurrados para a “filosofia dominante”: A da classe dominante! 

Luckesi (1994) apresentou três grandes correntes da Filosofia da Educação: A educação enquanto redentora da sociedade (acredita que a educação pode exercer domínio sobre a sociedade, compreendida como as pedagogias liberais); A educação enquanto reprodutora da sociedade (que a percebe como reprodutora de um modelo social vigente) e, a educação enquanto transformadora da sociedade (com uma postura crítica às duas anteriores e considerando o papel social e político da educação). 

Longe de querer esgotar o assunto, este breve comentário tem como objetivo trazer ao debate a falta de embasamento filosófico e pedagógico dos professores especialistas (e porque não também de pedagogos?) que atuam na educação básica e no ensino superior. Aprendemos a dar aula tomando como exemplo os nossos professores do passado, entretanto, salvo algumas exceções, os nossos professores também aprenderam com os seus professores do passado. 

A essa transmissão de valores, sem espaço para reflexões e debates filosóficos sobre a educação, costumamos chamar de “senso comum”. Então, pensando na formação de professores para trabalhar com a 
“massa”, somos, por natureza, reprodutores da sociedade. 

Frisamos que, se realmente queremos mudar o caminho da sociedade, devemos aproveitar os espaços de Hora Atividade, Planejamento e Replanejamento para discutir (com um pouco mais de embasamento) sobre 
“qual é a função da escola?”. Se acharmos que está tudo bem e que não precisamos fazer nada, então podemos continuar entregando os planejamentos iguaizinhos ao que recebemos do sistema público de ensino ou idênticos aos dos livros didáticos. É só copiar, mudar o ano e entregar. 

Discute-se sobre planejamento, sobre avaliação, sobre aprovação-reprovação, sobre regimento escolar, sobre normas de conduta, mas não se discute “qual é a função da escola”. 

Como prover o objetivo da escola (considerando que o questionamento anterior foi discutido e compreendido)? Além do mais, o próprio professor não se discute enquanto professor e perde-se no seu papel. O senso comum nos leva a práticas pedagógicas nem sempre corretas, mas que estão em uso e são transmitidas entre os entes constituintes de uma sociedade chamada corpo discente. 

A sociedade é, em muitos casos, acrítica, pois não discute, não questiona os rumos da educação propostos 
pelos governantes, mesmo porque foram formados dentro de uma escola reprodutora da própria sociedade, ou seja, que trabalha na manutenção dos status vigente, que por sua vez, atualmente, é proveniente de um sistema neoliberal cuja política é a subserviência das classes não dominantes. Então, o fato de se não discutir e não refletir sobre quais são os objetivos da escola, e mesmo dos professores, nos leva a reproduzir uma política educacional e outras políticas que não atendem aos anseios de uma sociedade menos subserviente, dotada de uma quase ampla liberdade de apropriação do conhecimento (via Internet). 

Aqui, talvez caiba um parêntesis sobre os alunos questionadores e tidos como indisciplinados pelo sistema 
atual. Será que o professor, cria da escola reprodutora, sabe lidar com esse tipo de comportamento? Ou é 
mais fácil excluir esse aluno para que ele não cause problema à sociedade? Lembre-se que o sistema não suporta pessoas críticas e questionadoras, pois isso é ameaça à classe dominante. 

Estamos nos aproximando de uma encruzilhada onde a apropriação dos saberes está diretamente relacionada com os objetivos a serem atingidos e nós, professores, gestores, pedagogos e outros, teremos que nos decidir para que lado deveremos andar e essa decisão só será possível de ser tomada se houver conhecimento dos processos pedagógicos que poderão ser úteis à transformação da sociedade. 

Por isso novamente frisamos a importância de se compreender o processo histórico em que se deu o desenvolvimento da escola e os seus diferentes objetivos. O professor neste processo é uma peça central, pois é o executor das tarefas pedagógicas. Sendo assim, se continuarmos trabalhando dentro de um processo “senso comum”, vamos continuar formando alunos “senso comum”, para uma sociedade “senso comum” executora de tarefas. 

Se considerarmos a escola como um aparato de controle de massas (tal como entende Althusser e Foucault), conceito esse que, ao que parece, está sendo usado pelos neoliberais com o intuito de produzir seres producentes, mas não questionadores, poderemos sim conduzir a massa a uma revolução; a revolução do saber, onde o conhecimento terá tanto valor quanto o mais fino ouro. 

O difícil é deixar ser um professor “senso comum”, pois fomos educados dessa forma, mas em algum momento esse ciclo deve ser quebrado, e só será quebrado se nos debruçarmos sobre os estudos filosóficos pedagógicos que tratam a essência dessa nossa profissão, por isso precisamos estudar mais, não só para apreender “metodologias inovadoras” ou “formas diversificadas de avaliações”, mas para saber porque estamos trabalhando em sala de aula. 

Omar de Camargo 
decamargo.omar@gmail.com 
- Técnico Químico 
– Professor em Química. 
- Pós Graduado em Química. 

Ivan Claudio Guedes 
icguedes@ig.com.br 
- Geógrafo e Pedagogo. Especialista em 
Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia. 
- Articulista e palestrante.


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