sexta-feira, 23 de maio de 2014

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL?

Atualmente é grande o número de profissionais que discutem o que é Desenvolvimento Sustentável. Biólogos, geógrafos, geólogos, economistas, engenheiros, arquitetos, advogados, mecânicos, enfim, é um debate que volta e meia aparece em destaque nos meios de comunicação e na boca do povo. Porém, pouco se entende e muitas ideologias se impõem criando visões distorcidas e pensamentos pré-concebidos.

A Terra existe há pelo menos 4,5 bilhões de anos. As primeiras formas de vida vieram aproximadamente há 2 bilhões de anos e se desenvolveram no oceano primitivo.

Na época, a atmosfera era composta de 97% de dióxido de carbono (CO2). Atualmente ela é composta de 78% de nitrogênio (N2), 21% de oxigênio (O2), 0,9% de argônio (Ar), 0,03% de dióxido de carbono (CO2) e vapor d’água. Graças a esses gases originou-se o conhecido “Efeito Estufa” que fez com que o planeta conseguisse equilibrar a sua temperatura permitindo o desenvolvimento da vida.

Durante a sua formação ocorreram diversas modificações: os continentes ficaram “dançando” de um lado para o outro e o clima se alterou diversas vezes. Atualmente a média climática do planeta é de 15ºC. Estudos indicam que entre 570 e 225 milhões de anos (Era Paleozoica) a temperatura média era bem maior tendo ocorridas diversas variações. No livro de K. Suguio “Mudanças Ambientais da Terra” encontram-se informações que retratam esse período. Durante essa Era, as calotas polares não eram cobertas de geleiras e ocorreram pequenas glaciações que podem ser reconhecidas, inclusive, no Estado de São Paulo, tais como no Parque do Varvito de Itu e no Parque de Rocha “Moutonnée” de Salto, em que ambas apresentam registros geológicos dessas pequenas variações climáticas.
Na Era Mesozoica, entre 225 e 65 milhões de anos (a conhecida Era dos dinossauros), a temperatura média da Terra atingiu entre 30 e 33ºC. Dentro da nossa Era (Cenozoica – 65 milhões de anos até atualmente), possuímos diversos registros de variações climáticas, mesmo em épocas em que não havia a presença da nossa espécie.

Essa breve e generalizada introdução ao planeta Terra é muito útil para compreender que a Terra é dinâmica e possui sua estrutura. É importante deixar claro que sempre houve mudanças no clima. Terremotos, furacões, tempestades e enchentes, sempre estiveram presentes na história do planeta.

Agora, diante desse breve esclarecimento podemos discutir o que é desenvolvimento sustentável.

Esse conceito nasceu dos debates entre 1960 e 1970. A concepção de desenvolvimento versava sobre a possibilidade de crescimento ilimitado impulsionado após a II Guerra Mundial, tendo como propulsores os Estados Unidos da América e os países capitalistas da Europa.

A receita de desenvolvimento imposta na segunda metade do século XX, aliado ao descontentamento popular por conta da política de guerra, o excesso de exploração de recursos naturais (sobretudo nos países subdesenvolvidos), os diversos impactos ambientais e as crises políticas e econômicas que despontavam naquela época, fizeram com que a sociedade civil se organizasse e passasse a cobrar de seus governantes.

Em 1972, a ONU criou a Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e foi dessa conferência que, alguns anos mais tarde a Comissão Drundtland publicou o documento “Nosso Futuro Comum”, que em 1987 trouxe o conceito de “Desenvolvimento Sustentável” como o “desenvolvimento que é capaz de garantir as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras atenderem também às suas”. Adiante, a ONG WWF apresentou este conceito entendendo como a “qualidade de vida humana dentro dos limites da capacidade de suporte dos ecossistemas”. Ambos os conceitos apresentam uma definição ampla e vaga.

Uma busca rápida na internet revela o quanto temos de material. Para o termo “salve o planeta”, encontramos 487.000 links em 0,21 segundos; “reciclar” 2.130.000 em 0,29 seg; “desenvolvimento sustentável” 2.030.000 em 0,42 seg. Uma busca por imagens apresentam das mais românticas às mais catastróficas. São crianças segurando o planeta, raios e tempestades, mãos unidas segurando a Terra, enfim, uma série de imagens que, assim como os conceitos apresentados acima, não tratam o núcleo do problema.

O que entendemos como núcleo do problema é, justamente, a nossa própria espécie e a ignorância a que estamos submetidos. Fazemos parte de uma espécie que explora sua própria espécie das mais diversas formas, e nos orgulhamos disso! Sujamos e emporcalhamos a nossa morada e para discutir questões ambientais, precisamos compreender melhor alguns modismos.

A questão da reciclagem é altamente polêmica, pois, já começa pelo conceito. A reciclagem é a desagregação dos componentes minerais que um determinado material possui, ou seja, sua decomposição total e recolocada no ambiente. Quem faz a reciclagem, portanto, é o planeta. O que fazemos com o lixo é reutilizar seu produto construindo outros materiais (mais lixo).

Sobre as enchentes, é comum dizer que é causado pela chuva ou pela moda do aquecimento global. Mas, não é preciso dizer que sem a chuva, não há água potável. Todos os rios têm seus diferentes ambientes, possuem períodos de cheias e de secas. O problema não é o ciclo do rio, mas construir às margens desses rios, desviar seus cursos ou jogar lixo ou qualquer tipo de material. Um exemplo pode ser dado no bairro do Pantanal na zona leste da cidade de São Paulo: você construiria uma casa em um bairro chamado “Pantanal” e reclamaria dos períodos de cheia?

O problema em si não está no ambiente, mas sim em como nos relacionamos com ele. Outro grande problema está na exploração da mão de obra pela nossa própria espécie.

Recentemente foi publicada uma reportagem em que uma empresa de refrigerantes desenvolveu uma garrafa “ecologicamente correta”. Trocou o petróleo pela cana de açúcar e ganhou diversos prêmios por ser uma “empresa amiga do meio ambiente”. Quanto um cortador de cana ganha por tonelada? Quantos morrem de estafa por cortar cana das 5h da manhã às 19h? Quanto de poluentes é enviado pela queima da palha e quanto de água a cana consome para crescer?

São questões como essas que queremos ver em debate. O planeta continua com ou sem a nossa presença. O planeta não corre nenhum tipo de perigo, muito pelo contrário, sua evolução continua (diga-se de passagem, até melhor sem a gente). O clima pode variar, os vulcões podem continuar aliviando a pressão que é produzida no interior do planeta, os terremotos podem continuar, enfim, a Terra deve, e vai, continuar com a sua dinâmica. O problema é a nossa espécie. Temos que mudar a nossa concepção sobre ser humano. Temos que mudar a nossa visão sobre o planeta.

Nosso meio ambiente não deve ser entendido como o rio que corre sobre águas cristalinas, o ar puro, o pomar, o solo, os animais livres no campo etc. o meio ambiente é esse em que vivemos: o ar com cheiro de fumaça de carros, ônibus e cigarro, a água dos rios poluídos, as ruas sujas, as crianças no farol, os andarilhos na rua, o trânsito. Esse é o nosso meio ambiente, e é sobre este meio ambiente que temos que discutir, trabalhar e viver. O que temos que salvar somos nós, e não o planeta!


Ivan Claudio Guedes, 33, Geógrafo e Pedagogo.
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