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sábado, 7 de fevereiro de 2015

A HISTÓRIA SOBRE O SALÁRIO DO PROFESSOR


A HISTÓRIA SOBRE O SALÁRIO DO PROFESSOR



A primeira referência que se tem noticia sobre o assunto vem do “subsídio literário”








O texto conduzido pelo Prof. Pedro Félix, apresenta uma breve história sobre o salário do professor. Ainda que eu discorde do autor quando coloca o "policial" como alguém que possui "regalias" e alto salário, o texto é bem conduzido e dá uma ideia geral sobre o assunto. Também ressalto a ausência, no texto, dos nobres "representantes da nação" dos poderes executivo e legislativo que recebem muito pelo que fazem.

O importante desse texto é trazer realmente a história do salário do professor. Diante de uma época em que não haviam professores remunerados, nem recursos para se pagar pelo seu trabalho, entretanto, ressalto que mesmo naquela época, até os dias de hoje, o salário está muito aquém do que realmente deveria ganhar um professor.

Boa leitura para todos.
Ivan Claudio Guedes


Jornal do Brasil: Quinta-feira 18 de Março de 1937, página 9.
Jornal do Brasil: Quinta-feira 18 de Março de 1937, página 9.


Todo mês ao completar 30 dias em média, o trabalhador recebe um percentual em papel moeda, geralmente depositado em sua conta bancária. A princípio, o valor corresponde a sua força de trabalho em seu correspondente emprego.

O termo salário tem origem no império romano, onde os soldados recebiam uma porção de sal, uma raridade na época e que se podia trocar com outras coisas, como comida, vestimenta, transporte, etc.

Todo salário hipoteticamente está ligado à força de trabalho desenvolvido por essa ou aquela categoria, e proporcionalmente pelo valor da riqueza produzida. Outro fator determinante do valor salarial é a quantidade de profissionais existentes no mercado.

Um fiscal tributário recebe X de salário por que tem no seu trabalho um ganho muito grande para a União, Estado ou Município.

O médico por ter a vida e a morte em suas mãos cobra valores extraordinários, se comparado à maioria da população, que não chega a ganhar mais que mil reais mensais.

O delegado, promotor, juiz e policiais de modo geral, têm regalias cada vez maiores, diante de uma sociedade violenta e cada vez mais seus salários, benefícios diretos e indiretos sobem igual a foguete, tudo em nome da segurança da sociedade.

E nós professores quanto ganhamos? Qual a origem do nosso salário?
A primeira referência que se tem noticia de salários para professores no Brasil vem do “subsídio literário”, criado pelo alvará de 10 de novembro de 1772.

Nome chique não? Historiando esse termo, ele foi criado a partir da Reforma Pombalina de 1759, quando da expulsão dos jesuítas do Brasil e de todo reino português.

Esta ordem religiosa cuidava da educação dos “curumins” abrasileirados e era uma educação essencialmente religiosa.

A expulsão dos jesuítas trouxe a educação laica, administrada pelo Estado Português. O ensino compreendia os Estudos Maiores (universidade) e os Estudos Menores (cadeiras das Humanidades e Cadeiras das primeiras letras). No Brasil o ensino na prática ficou apenas na instrução das primeiras letras.

O Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo dentro do projeto iluminista do rei filósofo D. Jose I, reorganizou a educação no reino português, e, portanto, também no Brasil sob o controle estatal, ou aulas Régias.

Dois problemas advieram daí. O primeiro era onde buscar mestres, não religiosos para tampar a lacuna dos jesuítas. O outro problema era de ordem financeira. De onde viria o dinheiro para pagar estes profissionais?

Resolveram as autoridades criar um imposto sobre a produção da aguardente, do vinho e do vinagre. No ultramar, ou seja, nas colônias o imposto seria cobrado da aguardente e da carne.

Serviria esse imposto para pagar os salários dos professores. O que vem logo na mente é pensar em qual seria o valor pago ao professor na época? A arrecadação era muito alta? Quem se habilitava a ser mestre na época? A arrecadação era suficiente para o pagamento das despesas?

A realidade nua e crua ditou a nossa sina desde então. A arrecadação era em parte subtraída e mandada para Portugal para financiar a instrução de filhos da nobreza portuguesa.

Havia também a sonegação por parte dos produtores coloniais. A educação era para pouquíssimas pessoas e o professor aqui recebia por quartel, ou seja, a cada três meses.

O subsídio literário foi cobrado até 1831, quando a Educação passou a ser incluída em um planejamento administrativo e no orçamento público. Durou o subsídio literário todo o primeiro reinado, do governo de D. Pedro I.


PEDRO FÉLIX é professor de História em Cuiabá.
Publicado originalmente pela Revista Biografia:

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

DE ESCOLA REPRODUTORA A ESCOLA TRANSFORMADORA

DE ESCOLA REPRODUTORA A ESCOLA TRANSFORMADORA

Apenas deter o certificado de pedagogia não garante o conhecimento 





A criação da escola no Brasil está ligada estritamente ao desembarque dos jesuítas para “catequizar e domesticar” os índios. Em seguida, o sistema de ensino implantado tinha como objetivo atender aos anseios da nobreza instalada na colônia para que seus filhos fossem corretamente instruídos para voltarem ao velho continente e concluir o ensino superior. Desta forma, por muito tempo nossa escola pública também foi elitista e considerada como uma arma importante para adentrar no mundo universitário. Bom, de lá para cá muita coisa mudou e a universalização do ensino tão pregada pelos escolanovistas, está se tornando uma realidade, apesar dos tropeços e enganos cometidos, temos avançado nesse ideal de escola para todos.

Mas, porque não temos alcançado os louros da vitória tão desejados? O que estaria faltando para alçarmos voos mais altos em direção ao topo da lista das avaliações externas como, por exemplo, o PISA?  Avançamos timidamente e às vezes recuamos nos índices e quase que invariavelmente o debate recai sobre os professores. Será que a culpa é só e tão somente dos professores? Que escola nós temos, ou seja, que tipo de escola nós temos? Quais os objetivos dessa escola? Bem, a resposta, acreditamo-nos, é que a nossa escola calcada em valores elitistas e/ou tecnicistas não mudou em quase nada do que era, ou melhor, ela é ainda carrega a estrutura de uma escola tecnicista com ranços elitistas. 
O que é pedagogia nova

A estrutura curricular verticalizada baseada na escola reprodutora de conteúdos inadequadamente agrupados, sem transversalidade e sem interdisciplinaridade está mais presente e vivo do que durante os anos 1960 e 1970. As disciplinas são desligadas e desconexas da realidade, recheadas de conteúdos estanques, nada (ou muito pouco, para não generalizar) aplicáveis ao nosso mundo. Então qual a diferença entre a tradicional e a atual?

O século XXI iniciou-se com mudanças bruscas nos paradigmas sociais, estamos diante de uma nova realidade, novos interesses, novos objetivos. O lado negativo é que ainda estruturamos a escola com base em critérios da segunda metade do século XX (que é uma caricatura da estrutura europeia do século XIX). Temos uma escola “para todos” com valores elitistas. Agregado a isso se soma o Estado lento e burocrático que não sabe se assume uma postura neoliberal ou de bem-estar social. Um Estado que funciona no papel, mas que não se aplica à realidade, ou seja, temos um Estado de “faz de conta” que proporciona uma educação “faz de conta”.

 E porque chegamos a esse ponto? Primeiro por que não produzimos nenhum sistema educacional estritamente nacional voltado às nossas realidades. Segundo, a ingerência de partidos políticos na educação tem sido uma constante, haja vista que a cada eleição, as mudanças de secretários, de ministros e agregados políticos resulta em uma reformulação do que estava sendo feito, partindo do zero. Os debates sobre a educação têm sempre o mesmo discurso e a mesma receita. Na prática, o resultado é sempre o mesmo: A má qualidade da educação. 

Até agora ninguém, de qualquer partido político, teve a sensatez de dizer que educação deveria ser apartidária, traçada em longo prazo, mas com critérios objetivos e bem definidos, visto tratar-se de um bem maior do que as mesquinhas políticas partidárias. Em terceiro lugar, podemos dizer que gostamos de importar “modismos pedagógicos” e modelos do hemisfério norte. Dentre os modelos importados, só não importamos orientais até agora por que, a bem da verdade, veem mostrando bons resultados, mas requerem uma mudança de postura social e, principalmente, política (sobretudo no campo da ética).

Nessa imensa colcha de retalhos que é o nosso sistema educacional, podemos apontar os temas transversais que, na Espanha, tem apresentado bons resultados e poderiam ser melhores trabalhados por aqui. Porém, no Brasil, não passa de um empilhado de temas e ideias que quase não estão presentes em livros didáticos ou em estruturas curriculares elaborados pelos sistemas de ensino.

O trabalho interdisciplinar, na prática, fica a cargo do professor que se aventura em desenvolver projetos, diga-se de passagem, à parte do menu acadêmico. Coordenadores pedagógicos ficam torcendo para que apareça um grupo de professores dispostos a introduzir os temas transversais e ligar suas disciplinas num âmbito interdisciplinar e com isso dar sentido às suas aulas. As universidades, por sua vez, limitam-se ao conteúdo curricular ensinado às várias gerações. Não há mobilidade curricular. Professores são engessados dentro de uma “caverna”. Esses profissionais são jogados no mercado profissional e levam consigo a sua “caverna”. Repassam aos seus alunos as mesmas sombras que um dia aprenderam a acreditar. 

Kant em sua pedagogia de valores morais, assim como outros, como, por exemplo, Paulo Freire e Rubem Alves, nos convidam a olhar com outros olhos, a termos um olhar quase metafísico em que o ser é muito mais importante. O ser humano está em constante evolução e, portanto o ensino deveria acompanhar essa evolução. O que se vê nas escolas é a transmissão de ideias arcaicas a respeito das ciências. Uma ciência imutável? As teorias científicas se sucedem ao longo do tempo e, em tom jocoso podemos dizer que nada é absoluto e tudo é relativo, e essas mudanças profundas ou não, e que podem ser de natureza epistemológicas, refletem diretamente na educação.

Diante desses fatos porque não se fazer uma integração de saberes? O ensino das disciplinas curriculares está enclausurado em gaiolas como pássaros que já não alçam voo. Precisamos de uma força transformadora que faça com que o dia a dia esteja presente no ensino dessas matérias curriculares. Evidentemente, não podemos relegar a desprezo o ensino tradicional, não se trata de abandonar um e acolher o outro, mas de integração, união. 

Nada melhor para transformar do que miscigenação dos conhecimentos, dos saberes. Os temas transversais e a interdisciplinaridade tem o papel importante de ser o agente aglutinante que irá dar vida nova ao conteúdo curricular bem como despertar no aluno a necessidade de se tornar um ser humano melhor. Um ensino integrado pode despertar no horizonte, mas é preciso ter cautela, pois uma simples canetada juntando disciplinas e mudando a estrutura curricular de uma hora para outra (como já desponta o MEC), pode piorar o que já está ruim. 

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química
omacam@gmail.com

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo
Consultor e assessor pedagógico
ivanclaudioguedes@gmail.com

CAMARGO, O.; GUEDES, I.C. De escola reprodutora a escola transformadora. Gazeta Valeparaibana [online], São José dos Campos, 01 ago. 2014. E Agora José? - Opinião. Disponível em http://www.gazetavaleparaibana.com/081.pdf  Acesso em 02 ago. 2014.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

UMA CRIANÇA, UM BRAÇO, UM TIGRE E UM PAI IRRESPONSÁVEL

UMA CRIANÇA, UM BRAÇO, UM TIGRE E UM PAI IRRESPONSÁVEL

Muitos pais imaginam ter poder absoluto por tudo. Os filhos aprenderam a serem “livres” sob a tutela dos seus pais.

Hoje li uma reportagem na Folha de São Paulo sobre um garoto de 11 anos que teve um braço amputado por conta de um ataque sofrido por um tigre em uma área proibida em um zoológico na cidade de Cascavél-PR e o fato me chamou a atenção, não pelo acidente, mas pelo os motivos que causaram o acidente.

Enquanto estava lendo pensei em diversos tipos de crianças (comparando com os nossos alunos nessa faixa etária). Poderia se tratar de uma criança que não obedecia aos pais, birrenta, ditadora, agressiva ou dissimulada. Entretanto, ao continuar lendo, a reportagem apontou que o garoto estava sendo influenciado pelo seu pai para correr ao redor da jaula, provocando o animal. Não somente isso, em outra cena do circuito de câmeras do zoológico, a reportagem afirma que o garoto havia acabado de mexer com um leão, e que seu pai estava próximo (VEJA O VÍDEO 1 ABAIXO).





Neste caso, é absoluto afirmar que o garoto estava agindo sob a tutela do seu pai e este, comportando-se como uma criança de 11 anos, estava lhe dando cobertura.

Quantas vezes vemos os pais darem “cobertura” ou até mesmo incentivar seus filhos a fazerem o que é errado ou perigoso? O que se passou pela cabeça deste pai em deixar seu filho alimentar um leão e um tigre? Porque a noção de perigo não lhe passou pela cabeça?

Içami Tiba (Limites - disciplina na medida certa) afirma que a moderna geração de pais não age como pais, mas como amigos, e amigos não educam. Amigos são amigos e pais são pais. Os pais desta geração não se atentam aos valores comuns de ética ou de limites. Abominaram qualquer tipo de repreensão em detrimento de uma suposta liberdade e esqueceram-se de que a educação é função primordial da família.

Família de ontem e de hoje na escola

É uma situação muito comum presenciar pais que, quando chamados à escola para tomar ciência de alguma atitude indisciplinar dos seus filhos, já irem armados para defendê-los a qualquer custo. O filho tem tanta razão quanto o cliente de qualquer comércio. Se é por causa de lição, é porque o professor dá muita lição, se é por questões disciplinares, é porque o professor está de marcação, se foi briga com outro aluno, é porque a família do outro não deu educação, e por ai vai. Aos poucos a infantilização da sociedade vai dominando o cenário social e ganhando cada vez mais força.

Em entrevista à MasterTV o Prof. Mário Sergio Cortella afirma que os pais estão delegando a função da educação familiar aos professores, assim como se faz com um personal trainner. Cortella diz que os professores estão sendo tratados como  personal father e personal mather (VEJA VÍDEO 2 ABAIXO).

Os papeis invertidos entre pais e professores só tendem a prejudicar a sociedade. É preciso deixar claro para ambos quais são os seus papeis. O professor contribui com uma parte da educação da criança, ou seja, com a escolarização. Os pais, por sua vez são aqueles que os terão por toda a vida, ou seja: Professor não é Educador. Essa tendência de chamar professor de educador só tem contribuído com a inversão de papéis e com a terceirização da educação de seus filhos.

Cabe então, aos professores, lembrarem constantemente os pais dos seus alunos para que estão na escola. Qual é a função da escola e quais são as diferenças entre pais e alunos, pois se não o fizerem, correremos o risco de assumir a responsabilidade sobre a irresponsabilidade dos pais.


Ivan Claudio Guedes, 34.
Geógrafo e Pedagogo


VÍDEO 2 - MENINO ATACADO POR TIGRE



VÍDEO 2 - MÁRIO SERGIO CORTELLA


terça-feira, 20 de maio de 2014

PARABÉNS PEDAGOGOS!

PARABÉNS PEDAGOGOS!

A função do pedagogo vai muito além da sala de aula. A sociedade precisa entender as diferenças entre pedagogos, professores e pais.



A escola antiga



A figura do pedagogo começa na Grécia antiga entre os escravos que conduziam as crianças à escola. Este escravo era submisso à criança, mas deveria fazer valer a sua autoridade quando necessário. O contato constante com a criança fez com que estes desenvolvessem habilidades no cuidado com a criança. “Aquele que conduz a criança”, era seu condutor ou guardião.

         O tempo passou, a tecnologia avançou, a sociedade mudou e o pedagogo não é mais um escravo, mas continua sendo um servo da criança, e mais, hoje a sociedade e os pais incubem ao pedagogo a tarefa de educar a criança, ou seja, a terceirização da responsabilidade de educar uma criança recaiu sobre o pedagogo.





         A diferença entre educação e escolarização requer um grande debate e não vou fazê-lo hoje. Minha intenção é trazer ao pedagogo a sua responsabilidade para com o seu trabalho e à sua significância profissional.

Hoje o pedagogo possui diversas ramificações no mundo do trabalho: Criou-se o Pedagogo Hospitalar, o Pedagogo Empresarial, o Pedagogo Social ou o Pedagogo Escolar, ou seja, onde houver a relação de ensino x aprendizagem, um pedagogo deverá estar presente.

A RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1, DE 15 DE MAIO DE 2006, disponível em http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp01_06.pdf, define as competências básicas do pedagogo e norteia os cursos de formação de pedagogos, entretanto esta mesma resolução não trata o pedagogo como um cientista da educação ou um pesquisador na área da educação. Ela o remete pura e simplesmente ao exercício da docência e da administração escolar.

A discussão que se espera neste artigo é sobre a função do pedagogo enquanto um pensador, pesquisador e articulador da escolarização (ou da educação formal), e não quanto um substituto do pai que delega a função da educação familiar ao pedagogo.

A educação familiar apresenta condicionantes ímpares do conjunto de valores morais e éticos que cada um constrói no convívio com a sua família e com a sociedade em que está inserido, desenvolvendo também seus vínculos emocionais. Caso um pedagogo, que também possui tais características, seja o responsável pela educação (familiar) de uma criança, é inevitável que haja conflitos de interesses sociais na educação de uma criança! Portanto, não é nem um pouco recomendável que os pais deleguem esta tarefa, pois não será bem realizada.

O pedagogo deve se ater à educação formal, ou seja, à escolarização em seus diferentes níveis. Deve saber conduzir uma criança com dificuldade ou deficiência de aprendizagem ao profissional competente. Pedagogo não é médico, não é psicólogo, não é psicopedagogo, nem assistente social. Portanto, não deve realizar uma tarefa para a qual não tenha estudado.

Um pedagogo bem formado, e antenado com a sua profissão deve conhecer (e dominar minimamente) a psicologia da educação, as leis que regem a educação, as políticas públicas, as metodologias científicas, a história, sociologia e a filosofia da educação, as diversas metodologias de ensino e os diversos fatores sociais que contribuem para as significativas mudanças na educação (formal), ou escolarização.

Outro ponto de capital relevância é a falta de clareza quanto a sua função na educação infantil. Como diz Paulo Freire “Professora sim, tia não!” ou como diz Armindo Moreira “Professor não é educador”, o pedagogo não deve ser substituído por um ente familiar, justamente pelos motivos expostos acima. Cabe dizer, também, que nem todo professor é pedagogo, mas todo pedagogo é um professor. Todos possuem uma tarefa específica em um ambiente específico, e que fique claro: pedagogo não é pai, nem mãe, nem tio, nem tia! Pedagogo é um especialista da educação, a quem cabe o papel de conduzir à aprendizagem formal, com planos, metas, indicativos e objetivos bem claros e definidos.

Quantas vezes nos defrontamos com situações em que o pedagogo se sente “obrigado” pela condição do seu trabalho, em substituir um ente familiar (pela falta de um ou mesmo pela negligência dos mesmos). Quantas vezes o pedagogo se desdobra em 40 para conseguir ensinar os seus 40 alunos? Quantas vezes vimos pedagogos gastarem do seu próprio dinheiro para suprir demandas escolares ou até mesmo familiares? É justo exigir isso de uma profissão?

Se nem na Grécia antiga o pedagogo era o responsável pela educação familiar das crianças, porque agora tem que ser?
O projeto de Lei nº 7264/2010 (http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=764303&filename=PL+7264/2010) aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, instituiu o Dia Nacional do Pedagogo, em que um dos seus objetivos é o de trazer “grande importância para o conhecimento do trabalho e valorização dos pedagogos na sociedade brasileira”, e ainda estamos engatinhando. A primeira valorização de um pedagogo deve vir dele mesmo, e não de outros. Por isso, digo com muito orgulho: SOU PEDAGOGO!

Ivan Claudio Guedes, 33, Geógrafo e Pedagogo.

UNESCO Educação um tesouro a descobrir cap 1 DA COMUNIDADE DE BASE À SOC...


O Prof. Omar de Camargo e eu discutimos o primeiro capítulo do Relatório da Comissão Internacional de educação para a UNESCO.

Um convite à discussão sobre a globalização cultural e seus reflexos nas escolas.


EDUCAÇÃO: Um tesouro a descobrir.
Discussão sobre o capítulo 1:


Da comunidade de base à sociedade mundial


terça-feira, 13 de maio de 2014

UNESCO Educação um tesouro a descobrir: Do crescimento econômico ao desenvolvimento humano


O terceiro capítulo desta série de nove capítulos o Prof. Omar de Camargo e eu apresentamos a discussão da carta da UNESCO em que se trata do papel da educação para o desenvolvimento econômico e social.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

QUEM É O MAIOR RESPONSÁVEL PELA EDUCAÇÃO DO MEU FILHO?

Recentemente foi divulgado nas redes sociais que um juiz de Goiás multou uma mãe pela omissão na educação do seu filho. Em Fernandópolis-SP, um juiz da Vara da Infância causou polêmica muitas vezes por multar igualmente os pais que não exerciam poder familiar sobre seus filhos.

Sabemos que a educação é complexa e possui várias ramificações. É preciso respeitar o choque de gerações, culturas e preceitos étnicos e religiosos, mas não é neste ponto que queremos discutir. Queremos discutir o acompanhamento das crianças dentro do ambiente escolar. Queremos discutir a responsabilização
dos pais diante dos atos dos seus filhos.

Primeiramente devemos expor o que se entende por escola. Apresentamos duas linhas opostas: (1) a escola enquanto depósito de crianças, onde os pais colocam seus filhos para se verem livres por alguns momentos e, (2) a escola enquanto espaço de formação acadêmica e de desenvolvimento intelectual e corporal.

Se aceitarmos a escola dentro da perspectiva do primeiro ponto, é melhor parar por aqui e não será preciso discutir nada. Entretanto, é no segundo ponto que devemos nos focar. Tratar a escola enquanto um espaço de desenvolvimento sociocultural do indivíduo.

Muitas vezes os pais pensam que ao colocar seu filho dentro da escola, tudo caminhará normalmente, sem choques de interesse, sem stress, sem brigas com os colegas, sem falta de materiais, sem quaisquer atos de indisciplina ou de falta de educação. Entretanto, é sabido que a escola é reflexo da sociedade e que
a sociedade de reproduz dentro da escola, portanto, chega ser natural a existência de conflitos sociais dentro deste ambiente.

Mas o que fazer quando os pais não garantem a presença do seu filho na escola? O que fazer quando os pais não garantem a manutenção dos estudos e a conduta do seu filho? O que fazer quando os pais não acompanham a vida escolar do seu filho? O que fazer quando os filhos controlam os pais?

Do ponto de vista legal vamos nos apoiar basicamente na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CR), no Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990 (ECA) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDB). Do que nos interessa para explanar esse artigo recomendamos a seguinte leitura: CP – Art. 205 ao 214, ECA – Art. 54 ao 56, 112 ao 117, 129 ao 138, 245 e 249,
LDB – Art. 5, 6 e 12.

A nossa legislação a partir de 1988, pós regime militar, foi baseada dentro de uma concepção de Estado de Bem Estar Social (Welfare State), onde o Estado assume as responsabilidades pela condução da sociedade. Acontece que anos após 1988, o que vivemos é um intenso regime de assistencialismo paternalista onde o Estado (sem estrutura e sem competência) assume, inclusive, a educação sobre a sociedade. Entretanto, é preciso frisar que a mesma legislação também compartilha sua responsabilidade com os pais, a família e a
sociedade, ou seja, todos são responsáveis pela educação das crianças.

Observe que a legislação sempre aponta a responsabilidade do Estado em zelar pela chamada, acompanhar o desenvolvimento do aluno, primar pelo seu desenvolvimento, etc. observe também que os pais sempre são chamados à responsabilidade, mas de nada adianta estar na legislação se não se faz valer. Fazer valer a legislação é convocar os pais sempre que necessário, enviar bilhete, telefonar e enviar carta registrada via correio, se mesmo assim os responsáveis não comparecerem, deve-se encaminhar ao Conselho Tutelar. Se o menor continuar faltando sem justificativa, deve-se encaminhar novamente, e assim deve ser quantas vezes for preciso. É necessário deixar bem claro que neste momento o professor (neste caso, representante legal do Estado), está fazendo valer a legislação citada, as medidas administrativas deverão ser tomadas pela
autoridade competente (neste caso, o Juiz da Vara da Infância e da Juventude).

Ainda que o caminho possa parecer tortuoso, trabalhoso e burocrático (e é), a escola deve-se prover dos meios necessários para que enquanto “Estado” cumpra com o seu papel determinado. O que vemos cotidianamente é a omissão deste acompanhamento sistemático por conta de diversos outros fatores que envolvem o trabalho docente e o trabalho administrativo de uma escola.

Agora, vamos supor que nada disso tenha sido feito e que ocorra algum problema com a criança ou adolescente na rua. Pois bem, a Polícia Militar encaminhará para a delegacia onde será lavrado o boletim de ocorrência sobre o fato, em seguida será verificado porque o menor estava na rua, adiante será averiguado
porque os pais não foram comunicados. Depois, porque o Conselho Tutelar não foi levado à ciência e, por fim, a escola poderá ser responsabilizada sobre o seu não cumprimento do papel de zelar pelo(a) menor.
Pois bem, professor(res) (igualmente coordenadores e diretores), se vocês não atentarem ao que foi escrito acima, poderão ser responsabilizados pela má educação dos filhos dos outros.

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
decamargo.omar@gmail.com

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo.
Articulista e Palestrante.
Especialista em Gestão Ambiental. Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
icguedes@ig.com.br

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE?

PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE?

A falta de educação e a banalização da violência são quase sinônimos, na sociedade atual





Depois de algum tempo escrevendo no Jornal Gazeta Valeparaibana sobre a educação formal, nós do “Programa E agora José?” nos vimos, de certa forma, obrigados a mudar o foco da nossa atenção para a educação informal. Necessariamente o que estamos vivenciando é uma generalizada falta de educação
(informal).

Violência


Temos visto ultimamente acontecimentos que nos saltam à vista e nos chamam a atenção. Acontecimentos violentos, de pais contra filhos, de filhos contra pais, de estudantes contra estudantes, de estudantes contra professores, de professores contra estudantes... Não dá para negar que alguma coisa vem acontecendo com a sociedade e por mais que se tente entender, o fato é que está difícil encontrar a resposta.

Temos tentado encontrar a razão para a violência generalizada e banalizada. Buscamos resgatar na linha do tempo de nossas vidas e nos acontecimentos recentes respostas que nos satisfaçam e nos ajudem a compreender essa faceta do ser humano.

Algumas pessoas poderão afirmar que a violência sempre acompanhou a sociedade. Desde que o mundo é mundo que a sociedade é violenta e que estamos sendo moralistas. Outras pessoas poderão dizer que é “sinal dos tempos, coisa do demo, apocalipse ou que está escrito na Bíblia”.

Na realidade nós acreditamos que, atualmente, a generalização da falta de educação e da violência gratuita, pode ser compreendida a partir da terceirização de responsabilidades. Deixamos de lado nossas responsabilidades sociais e não nos assumimos enquanto pais, professores, alunos, policiais, etc. Se estamos vendo uma onda crescente de violência é porque não estamos assumindo nossas responsabilidades e estamos deixando para outros assumirem o que nós não fazemos.

Uma vez que a sociedade se mostra violenta e compreendendo que a escola faz parte da sociedade, logo isto estará bem reproduzido no ambiente escolar. Nas escolas pululam casos onde a falta de responsabilidade dos pais é gritante, também é gritante os casos de violência gratuita. Vídeos de brigas nas escolas são diariamente inseridos no youtube como uma diversão. A impressão que se dá é a de que não saímos dos tempos romanos com gladiadores, pão e circo. Mas, pensando em tempos atuais, o que está havendo com a sociedade?

Uma das hipóteses para a perda do pátrio poder dos pais sobre seus filhos é a de que, após a segunda metade do século XX com a inserção da mulher no mercado de trabalho e consequente divisão de responsabilidades no seio familiar, teria provocado uma quebra na responsabilidade para educação das crianças. A mulher deixou de ser a dona de casa para ser a dona da casa, fazendo muitas vezes o
papel de pai e mãe ao mesmo tempo, pois a figura do pai em certas famílias acabou deixando de existir. Isso trouxe uma ruptura da estrutura familiar que se conhecia e que já estava estabelecida até de certa forma, como sólida (pelo menos nas famílias mais tradicionais).

Nessa estrutura antiga a mulher desempenhava um papel de educadora dos filhos, era ela quem mantinha a ordem familiar e ditava, em seu âmbito, as regras morais. O pai, por sua vez, era o mantenedor, aquele que provinha o sustento através do seu trabalho. Com o desenvolvimento da estrutura social moderna, o
filho foi sendo deixado de lado, aos cuidados dos avós, ou de uma creche, ou até mesmo ficam sozinhos com os mais novos sendo cuidados pelos mais velhos. A responsabilidade pela educação das crianças foi terceirizada. Não se tem mais tempo para os filhos e para aplacar a consciência os pais exageram na permissividade (na doce ilusão de não serem pais, mas amigos dos filhos).

Esse assunto extenso, polêmico e controverso precisa ser retomado. Precisa ser melhor analisado. Por isso no próximo mês, vamos tentar contribuir com mais discussões sobre este assunto.


Este artigo continua em: PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE II
http://portaldaeducacaoreflexiva.blogspot.com.br/2013/11/para-onde-caminha-humanidade-ii.html

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
Pós-Graduado em Química.
decamargo.omar@gmail.com

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão
Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando
em Geologia.
Articulista e palestrante.
icguedes@ig.com.br

Para referenciar este artigo:

CAMARGO; O.; GUEDES, I.C. Para onde caminha a humanidade? Gazeta Valeparaibana. Ed. 71. Ano IV. Disponível em: <http://www.gazetavaleparaibana.com/071.pdf>, 2013, p. 09.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A INDEPENDÊNCIA DOS DEPENDENTES

Eu não sei até que ponto devemos comemorar algo que não somos.

Reza a lenda de que D. Pedro I proclamou a independência às margens do rio Ipiranga no dia 7 de Setembro de 1822. Lenda a parte, é preciso determinar qual é o tipo de independência de que estamos falando.

Será que realmente somos um povo independente?


O que dizer da dependência psíquica que estamos submetidos via mídia que faz a clássica lavagem cerebral a favor do comércio e dos grupos políticos que estão no poder.

O que dizer da dependência cultural que temos em que somos obrigados a absorver a cultura de massa suprimindo a cultura local.

O que dizer da dependência religiosa que cerceia a liberdade de pensamento e expressão em favor dos “bons costumes” e da moral religiosa.

Na realidade ser independente é difícil. Para ser independente não podemos ser dependente, ou seja, temos que andar sozinho. Temos que nos responsabilizar pelo que falamos e pelo que pensamos e é ai que mora o perigo.

Na realidade temos medo de ser independente. Tanto medo quanto um bebê que está aprendendo andar. Entretanto, diferentemente do bebê, temos medo de andar sozinhos, de pensar, de falar e de agir.

Quanto é difícil discutir uma ideia ou um assunto se o nosso ouvinte ou leitor não compartilha da mesma ideia? Muita gente não esta preparada para ouvir uma critica ou uma opinião diferente. Muita gente não esta preparada para se dispor diante de um grupo e apresentar uma critica ou uma opinião diferente. Ter independência intelectual e moral é difícil, e quando se tem, dá se a impressão de que você é um extraterrestre, um louco.

A independência intelectual deveria ser o primeiro tipo de independência que um povo deveria bradar. Mas como gritar por uma independência se não se tem a consciência de que é dependente?

Talvez ai esteja um dos grandes motivos para a educação não dar certo. Intelectualizar um povo significa dar liberdade. Liberdade de pensamento, de opinião, de leitura, de expressão. Liberdade de dizer o que quiser para quem quiser e quando quiser. Liberdade de ter suas convicções e de poder expressar sem medo de ser repreendido ou de ser queimado na fogueira.

Povo que se mantém na jaula é povo fácil de controlar. Povo que se mantém no escuro é fácil guiar. Povo escolarizado que não sabe ler é fácil de manipular.


Ainda estamos engatinhando para a independência do Brasil. 191 anos se passaram desde a lenda. Precisamos de alguns tantos outros. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

SÍNDROME DA AMNÉSIA PEDAGÓGICA

SÍNDROME DA AMNÉSIA PEDAGÓGICA


Você já reparou quantas visões diferentes há sobre uma mesma escola? Já parou para analisar a opinião dos seus colegas sobre seu próprio trabalho? Já trocou ideias com outros trabalhadores da educação para ver quantas opiniões diversas há sobre o trabalho docente? Há algum tempo temos percebido as diferentes visões que pairam sobre o sistema educacional. Para didatizar vamos englobar os grupos, mesmo sabendo que não é correto fazê-lo, pois sempre há uma exceção à regra.

Síndrome da amnesia pedagógica


O primeiro grupo é dos professores. Esse grupo constitui o corpo docente, professores egressos das faculdades e universidades e que tomaram nota de uma vasta literatura tanto na sua área de formação específica (no caso dos professores especialistas) quanto pedagógica (no caso dos pedagogos). Passaram de 3 a 4 anos lendo e relendo teorias e conceitos. Fizeram planos de aula, técnicas de ensino e estudo de metodologias, mas ao chegar à escola fizeram uso do livro didático e do currículo escolar tal qual uma bíblia ou uma camisa de força. Limitaram-se a entrar em sala de aula, passar o texto na lousa (ainda que os alunos tenham livros) e mandar os alunos responderem questões. Em seguida, aplicam a prova (quando o fazem) e partem para o capítulo seguinte. Seu posicionamento com a direção é sempre crítico. Acham defeito em tudo: classificam a gestão escolar como incompetente, omissa, preguiçosa e enrolona, cumpridora cega de ordens do governo e por aí vai.

O segundo grupo é da gestão escolar. Esta dividida entre vice-direção e direção, coordenação pedagógica e supervisão escolar (englobando aqui todo o núcleo da diretoria de ensino, secretaria de ensino ou delegacias de ensino – dependendo da região). Este grupo tem a incumbência de organizar e administrar a escola, desde o projeto pedagógico, as finanças, prestação de contas, logística, fluxo de alunos e execução do projeto pedagógico. De formação igual ao do professor em sala de aula esses profissionais tendem a classificar o professor como enrrolão, preguiçoso, sem liderança, incompetente na sua função, sem postura e por aí vão os adjetivos negativos. Obviamente que a percepção daqueles que estão nas secretarias de ensino (ou diretorias regionais de ensino) é semelhante àqueles que estão na direção da escola e/ou na coordenação pedagógica, e o sentimento destes em relação àqueles também é mútuo.

Mas enfim, o que acontece para que exista esse jogo de empurra-empurra? Essa terceirização da responsabilidade do trabalho? Para melhor analisar este momento vamos lançar uso de um novo conceito que denominamos como a “Síndrome da Amnésia Pedagógica” (SAP). Esse conceito, até então desconhecido expressa o esquecimento de uma função, fazendo o profissional rapidamente cair no trabalho via senso comum, projetando nos outros os problemas causados pela sua função. Não obstante, esse ainda passa a trabalhar como um mero reprodutor do sistema cumprindo “sua função”.

No caso dos professores, esses se limitam a transcrever aquilo que os manuais indicam. Esquecem-se das metodologias, não conhecem (ou esqueceram) as tendências pedagógicas, os estudos filosóficos, sociológicos e psicológicos sobre a educação e/ou a História da educação.

No caso do segundo grupo, seu trabalho limita-se a tocar papel, preencher relatórios, responder estatísticas, gerar papel e papel, bater carimbos e fazer assinaturas em mais papeis.

Ao que tudo indica, quando o sujeito troca de função, tem-se a impressão de que este troca “de caverna” (fazendo alusão ao mito da caverna de Platão). Em pouco tempo de trabalho na nova função ele esquece o que aprendeu (ou deveria ter aprendido) na faculdade e limita-se ao descrito acima (reproduzir “o sistema”) e criticar os outros. Já o caso do segundo grupo é mais sério, pois os mesmos passaram por um bom tempo pela experiência da sala de aula e ao sair dela são acometidos da SAP onde passam a enxergar tudo com bons olhos e terceirizar o problema da educação, principalmente, aos professores.

Queremos chamar a atenção dos leitores para esse fato, que é de certa forma corriqueiro no meio escolar. Demos o nome de SAP ao esquecimento, momentâneo ou não, daquilo que já se fez ou professou em sala de aula quando da ida para uma função na gestão escolar, ou da volta à sala de aula. É interessante, pois o profissional nessa situação não percebe-se dessa forma e, com certeza, nos diria que estamos “viajando na maionese”. O curioso dessa situação é que todos independentes da função que exerçam na escola, deveriam remar para um mesmo sentido, de maneira que o resultado fosse aparente. O que vemos na realidade é que são diversos remadores, mas que o barco fica virando em volta, pois uns remam num sentido e outros noutro sentido. Isto porque, no nosso modo de ver, todos estão imersos no que chamamos de senso comum, sem a coragem de realizar algo novo, diferente. E qual é o senso comum nesse caso? É que a culpa sempre é dos outros e não nossa. É a terceirização da responsabilidade. Não podemos e, principalmente, não devemos esquecer que toda moeda tem dois lados e não são iguais. Se conseguirmos transcender nossos problemas pessoais e nos percebermos como um grupo, cujo interesse é a qualidade do ensino, evidentemente o barco irá andar num sentido apenas. Rumo ao sucesso.

É importante dizer que o jogo de empurra-empurra não vai levar ninguém a lugar algum, e que, se realmente quiser uma educação de qualidade o professor (independentemente da função que ocupa) deverá continuar estudando. Precisará sair do senso comum, da sua zona de conforto, mas se mesmo assim a SAP não for curada, recomendaremos sair da profissão e deixar para realmente quem está trabalhando com seriedade.

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
Articulista e palestrante.
icguedes@ig.com.br

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
Pós-Graduado em Química.

decamargo.omar@gmail.com

Para referenciar este artigo:

GUEDES, I. C.; CAMARGO, O. Síndrome da Amnésia Pedagógica. Gazeta Valeparaibana. Ed. 69. Ano IV. Disponível em: http://www.gazetavaleparaibana.com/069.pdf Ago, 2013, p.09.   

sexta-feira, 1 de março de 2013

SARESP: INDICADOR DE QUALIDADE OU PARANOIA PEDAGÓGICA? PARTE II

SARESP: INDICADOR DE QUALIDADE OU PARANOIA PEDAGÓGICA? PARTE II

Avaliação do ensino e da aprendizagem de forma quantitativa, nem sempre reflete a realidade do ensino






Em novembro de 2012 escrevemos a primeira parte deste artigo em que abordamos a questão da supervalorização do SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar de São Paulo), que estava para ser aplicado naquele mês, pelo Governo do Estado de São Paulo (http://www.gazetavaleparaibana.com/060.pdf).
CONCURSO PARA PROFESSOR

Neste mês de Março ou meados de Abril os dados serão divulgados amplamente pelas mídias apresentando os resultados auferidos pela avaliação. No entanto, o que se pretende discutir dessa vez a conotação “meritocrática” que é conferido ao IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo).

O IDESP é confeccionado a partir da fórmula, IDESP = IDS X IFS, onde a variável: Índice de Fluxo (IFS) representa a taxas de reprovação e de evasão escolar e o Índice de Desempenho (IDS) representa a nota do SARESP.

Deixando de lado as elucubrações matemáticas, sabemos que as avaliações escolares medidas por índices e regidas por metas não é novidade no contexto da administração escolar mundial. As orientações do Banco Mundial para o Desenvolvimento da Educação (Learning for All: Investing in People’s Knowledge and Skills to Promote Development, disponível em:  http://www.worldbank.org/education..), FMI (http://www.imf.org) e a Carta da Unesco para a eduação no século XXI (http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/home/), deixam muito claro a conjuntura mercadológica e administradora que a educação (em países que cumprem a cartilha do sistema neoliberal, como o Brasil) devem implementar em seu sistema educacional. A premissa é bem básica: os baixos índices devem ser difundidos por toda a sociedade para que fique expressa a ineficiência do Estado com a educação. A solução? Partir para as Parcerias Público-Privadas e para a privatização do sistema (cf LIBÂNEO; OLIVEIRA; TOSHI, 2012).

A ideia é desobrigar o Estado dessa função, o que é contraditório com a nossa Carta Magna. Temos aí um imbróglio, um nó que não se consegue desatar, pois se de um lado o Estado é obrigado a cumprir o que está na constituição, por outro lado se vê na contingência de cumprir a cartilha do neoliberalismo e se não cumprir as “torneiras do dinheiro fácil” se fecham.

O sistema de meritocracia foi importado desastradamente da cidade de Nova Iorque (EUA), em que foram estabelecidas metas para os docentes cumprirem. Implementado entre 2007/2008, em 2011 estudos confirmaram que não existe relação entre a qualidade do ensino e a bonificação de professores, e cancelaram este projeto. No Brasil, a ideia ainda soa como inovadora, e tem ao seu lado vários economistas apaixonados pelo sistema neoliberal que creem piamente no que está escrito nas cartilhas do Banco Mundial, da Unesco e do FMI, e que ecoam a quatro cantos esses escritos. O governo, por sua vez, é obrigado a ceder, pois não tem força política, ideológica ou de plano de governo para fazer valer o seu Estado de Bem Estar Social.

Bem sabemos que a bonificação faz parte do assistencialismo promovido, assim como as diversas bolsas-auxílio, pelas ideias neoliberais

“O estudo em Nova York aponta que o sistema não mudou as práticas docentes. Uma das conclusões é que o professor que recebe bônus entende que apenas foi recompensado pelo esforço que sempre teve - e não que tenha buscado melhorar”. (SIC) – Folha.com -20/07/2011.

Como entendemos aqui não é muito diferente, além de que somos controlados por um pacote matemático não muito acessível aos próprios professores de matemática ( alguém já teve a curiosidade de saber a teoria por detrás dos índices?). Resta aos professores uma explicação mais simples: - índice de desempenho advém do Saresp e o índice de fluxo (como explicado resumidamente acima) serve para penalizar e obrigar as escolas a empurrarem os alunos adiante, aptos ou não a cursarem a serie seguinte.

Que culpa têm os professores se os alunos se evadem da escola? Pedagogos-economistas de plantão, dirigentes de ensino, supervisores, diretores de escola e coordenadores dirão, na sua maioria, que a escola não oferece aulas interessantes ou que a escola não é atrativa a esses alunos.

 Que culpa têm os professores quando pais irresponsáveis preferem ver seus filhos muitas vezes pedindo esmolas num semáforo do que na escola? Que culpa têm, os professores, se muitos precisam sair da escola para partir para o mercado de trabalho? Que culpa têm os professores se a bolsa família é dada a qualquer um desde que não falte na escola, sem se importar se esse aluno adquiriu algum conhecimento ou não? Então tudo isso não é levado em conta, ou melhor, é colocado na responsabilidade da escola e dos professores.
A quem o sistema educacional e econômico quer enganar? Isto não funciona e deveria acabar ou ser reformulado. Professores não são valorizados e muitas vezes nem plano de carreira possuem. A priori, a suposta esperança de ganhar algumas migalhas a mais cria um cabresto com um único objetivo para o professor: conseguir o bônus.

 Ora, o Saresp não tem nenhum objetivo senão produzir o índice de desempenho para compor o IDESP. Todos sabem disso, inclusive os alunos. Daí a ser divulgado pela mídia que serve para dar bônus aos professores foi um passo. E é assim que a massa leiga e desavisada entende, então que interesse tem o alunato em produzir uma prova com um bom desempenho? Tirando uns poucos, poderíamos dizer que ninguém, pois é fato que muito dos alunos, não querem “dar bônus aos professores”.

Logicamente, diante disso tudo, só podemos reafirmar o que já havíamos dito: - isso tudo virou uma paranoia pedagógica, onde, como asnos, perseguimos uma cenoura na vã esperança de alcançarmos um resultado que será, e o é, derrubado pelo índice de fluxo e novamente servirá para ajudar a denegrir a escola pública.

Artigo originalmente publicado no jornal Gazeta Valeparaibana. Ed. 64, Ano IV, Março de 2013. p. 9.

Referência:
LIBÂNEO, J.C.; OLIVEIRA, J. F.; TOSCHI, M. S. Educação Escolar. Políticas, Estrutura e Organização. 10 ed. São Paulo: Cortez, 2012.

Omar de Camargo
- Técnico Químico – Professor em Química.
- Pós Graduado em Química.

Ivan Claudio Guedes
- Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
- Articulista e palestrante.
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