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terça-feira, 2 de junho de 2015

MÁFIA DA MERENDA E INDÚSTRIA DA FOME

MÁFIA DA MERENDA E INDÚSTRIA DA FOME

Quem ganha com uma educação sem qualidade?

Corrupção na educação

Que a educação é um ralo de dinheiro que flui como as águas do Rio Amazonas, isso todo mundo com um pouco de curiosidade já sabe. Que a miséria é necessária para que muitos ganhem com ela, isso também não é novidade.

Notícias envolvendo corrupção e educação não é novidade. No Programa E Agora José? gravado em 2013 discutimos durante um pouco mais de uma hora várias reportagens sobre diversas formas de corrupção envolvendo a educação (clique aqui para assistir).




Por força de Lei, a União deve empregar 18% da arrecadação dos impostos com a educação. Estados, Municípios e o Distrito Federal devem investir 25%. Na prática, é muito dinheiro. O Plano Nacional de Educação prevê nada menos que 10% do PIB para a educação. Para que tanto dinheiro? para alimentar mais corrupção. 

Além da corrupção, também existe o desperdício de dinheiro público. Obras mal realizadas, materiais de baixa qualidade, duplicidade de material didático que não se complementam, livros que ficam empoeirando nos depósitos...

O fato é que a corrupção na educação é um câncer que deve ser combatido, mas, quem vai combatê-lo? A sociedade? o Ministério Público? a Justiça? Quantos casos já foram realmente julgados, os corruptos presos e o dinheiro devolvido aos cofres públicos?

Podemos ver várias máfias inseridas no ambiente escolar. Máfia dos uniformes, da merenda, dos materiais escolares, das mochilas, das reformas nas escolas, enfim... muita gente ganha dinheiro com a educação, menos aquele que está na escola trabalhando com os alunos.

Recentemente várias pessoas de diferentes lugares me relataram que, nas escolas, são servidas em torno de 350 merendas/dia. As merendeiras são instruídas a preencherem suas planilhas com 450 ou 500 merendas/dia. Consequentemente, quem ganha com isso é a empresa terceirizada para servir a merenda. Quem não o fizer, é demitida!

Na recente onda de terceirizar tudo, o que se observa é que os corruptores e os corruptos não são exclusivamente os membros do poder público, mas sim da iniciativa privada. Portanto, o fato de ser público ou privado não difere quando se trata da corrupção. Ambos são corruptos.

Fazendo uma rápida análise, é possível verificar que as baixas notas do IDEB estão diretamente relacionadas com os altos índices de corrupção em Estados e Municípios. O Brasil é o país da alta corrupção e da baixa escolarização. É importante manter uma linha de pobreza sempre ativa, pois assim se justifica mais recursos para "salvar a educação".

No mais, deixo aqui meu protesto dizendo que todos nós somos responsáveis pela corrupção. Nós votamos nas máfias que se instalam nos três poderes, nós somos o grande gatilho que se ativa na corrupção. Precisamos escolher melhor os nossos representantes e precisamos que boas pessoas nos representem. Precisamos acompanhar, denunciar, cobrar e lutar para que este país realmente seja um país de verdade.

No Conexão Repórter de 31/05/2015 foi tratado sobre a máfia da merenda no Estado de Alagoas. O vídeo, deixo abaixo para quem quiser assistir e ver como funciona, na prática, as licitações na educação.

Leia o outro texto que escrevi após a publicação da segunda parte dessa reportagem e acompanhe o vídeo completo pelo canal do STB clicando aqui.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DILMA PROPÔS RETIRAR SOCIOLOGIA E FILOSOFIA DO CURRÍCULO ESCOLAR?

DILMA PROPÔS RETIRAR SOCIOLOGIA E FILOSOFIA DO CURRÍCULO ESCOLAR?

Presidente afirma em entrevista ao Bom Dia Brasil que há muitas disciplinas no Ensino Médio.





A polêmica gerada em torno da declaração da Presidente Dilma sobre a exclusão do currículo escolar das disciplinas de Filosofia e de Sociologia só ajudam ilustrar o quanto capenga está a estrutura escolar brasileira.

É importante lembrar que há pouco tempo houve uma reforma curricular em que as disciplinas de Sociologia e Filosofia foram retiradas do currículo (até 1996 eu tive Filosofia, Sociologia e Psicologia), na época, o presidente era um sociólogo. Costumo dizer que coube a um metalúrgico trazer novamente essas disciplinas ao currículo escolar (sem ofender nenhuma classe trabalhista, inclusive a dos sociólogos).

Dilma Bom Dia Brasil

A defesa de Dilma para o corte de algumas disciplinas justifica-se pela brilhante ideia que surgiu no seio de movimentos (ditos) sociais em defesa de uma suposta educação que julgam que o currículo escolar brasileiro, no ensino médio, possuem muitas disciplinas (tadinho dos alunos que precisam estudar, estão sobrecarregados... sobrecarregados de que se não estudam nada?) São elas: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Biologia, Física, Química, Educação Física, Arte e Língua Estrangeira (Inglês). Observa-se ainda que no Senado e na Câmara dos Deputados existem diferentes projetos para inclusão de outras disciplinas, tais como: Ciência Política, Direito básico, Trânsito, Economia doméstica, e por ai vai.

Na realidade, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) não define currículos, mas sim conhecimentos básicos que o aluno deve adquirir, que estão expressos nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Quanto muito algumas emendas apresentam a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira, música, direitos humanos (sobretudo infantil) e a obrigatoriedade de trabalhar com filmes brasileiros (2 horas por mês, no mínimo).

Minha indagação (e indignação) não recai sobre a quantidade de disciplinas em si, mas na vontade de alguns grupos em discutir o que não precisa ser discutido. Piorar o que já está ruim. Lembrando que até pouco tempo também se ensinava (e naquela época se aprendia) Latim, Italiano, Educação Moral e Cívica, OSPB e por ai vai. Das ilustres disciplinas que já tivemos no currículo, posso citar: Curso Bíblico (1549-1827), Lápis e bordado (1827-1879), Francês (1890-1946), Lavoura e horticultura, marcenaria e economia (para os meninos), costura e economia doméstica (para as meninas) (1879-1890), enfim, como já discuti anteriormente, o currículo é o foco de diversos interesses e conflitos.
Quer comparar o currículo brasileiro com outros exemplos de ponta do PISA?

Dois exemplos: na Finlândia, por exemplo, o Ministério da Educação não fixa os conteúdos, mas sim o mínimo que deve ser aprendido, cabe às escolas e às secretarias regionais definirem o currículo. Já no Japão, se observa para o equivalente Ensino Médio: Língua Japonesa, Estudos Sociais, Matemática, Ciências, Música, Artes, Educação Física e Sanidade, Treinamento Técnico e Economia Doméstica, Língua Estrangeira (Inglês), Educação Moral e Atividades Especiais.

O problema que ninguém quer discutir são as condições de trabalho do professor, sua baixa qualidade na formação inicial e continuada, o péssimo salário, a falta de respeito, a terceirização da educação aos professores (que teimam em chamá-los de educadores), a falta de interesse em estudar (e não saber estudar – uma vez que se estuda para tirar nota, e não para aprender), e por ai vai... Ao pressionarem o governo para nivelar por baixo (pior do que já está) a impressão que dá é a de que, justamente, estão fazendo de propósito para piorar tudo. Imagine como ficaria juntar Geografia, História, Filosofia e Sociologia em uma única matéria? Física, Química e Biologia como uma coisa só? Já não bastam alguns lugares que retiraram História, Geografia e Ciências do currículo nos anos iniciais com o pretexto de que os alunos devem aprender a ler (é claro, para aprender História, Geografia e Ciências não é preciso ler, certo?) e também já querem extirpar o Ensino Médio?

Quanto à entrevista da presidente, ora, assista a entrevista completa e não se prenda a vídeos de 20 segundos que estão rolando pela internet em que foi recortada uma fala fora de contexto com o puro pretexto das eleições. Na realidade ela ainda tentou justificar o pífio rendimento do Brasil pelo IDEB através do currículo. Grande engano da presidente, mas não vou discutir isso aqui (não agora).

O que precisamos discutir são os tópicos levantados acima, e não quantas disciplinas são ensinadas, mas como são ensinadas e, principalmente, como são aprendidas.
São aprendidas?

Tire suas conclusões. Veja a entrevista aqui:

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

REFLEXÕES SOBRE O CURRÍCULO ESCOLAR

REFLEXÕES SOBRE O CURRÍCULO ESCOLAR

O currículo escolar deve ser flexível e atender às necessidades da sociedade. Na prática, muitas vezes é uma reprodução “mais do mesmo”.





Vários professores devem se perguntar: “Qual conhecimento ou saber é considerado importante ou válido ou essencial para merecer ser considerado parte do currículo?”, ou “Por que esses conhecimentos, e não aqueles?”, “Qual é o tipo de ser humano desejável para um determinado tipo de sociedade?”, “Qual é a função da escola, das disciplinas e dos conteúdos para a formação desse cidadão?”.

Currículo

                  Muitas perguntas vêm à tona quando se discute “o currículo”. As definições do que devem conter em um currículo estão expressas em diversos artigos da Lei 9.394/1996. Essa lei já sofreu diversas alterações e muitas propostas andam pelo Congresso propondo emendas.

                Na realidade, o currículo deve oferecer condições básicas para que o aluno entre no sistema escolar e saia conforme as ansiedades e angústias da sociedade. Tais demandas variam de tempos em tempos. Novas necessidades vão surgindo e velhas necessidades vão deixando o espaço escolar.

               O currículo nada mais é do que um caminho que será submetido ao aluno para que o mesmo possa formar-se conforme as expectativas do sistema (espaço-tempo) em que está inserido. Tal concepção vai depender do grupo que se encontra no poder e sua relação com a sociedade. De tempos em tempos tais concepções mudam, como já dito. Hora há necessidade de um currículo tradicional, hora progressista, hora técnico, hora mais humanista e por assim vai. Em cada espaço de discussão sobre o currículo os diferentes segmentos da sociedade “brigam pelo seu espaço”. O choque de interesses sobre as determinações do currículo é um campo de batalha minado e explosivo. Althusser estabelece a conexão entre a ideologia e a educação. O currículo é entendido como um “aparelho de controle do Estado” para que se “formem” de acordo com as instruções de um determinado governo.

           Na estrutura nacional, o Plano Nacional de Educação prevê o estabelecimento de um currículo comum (básico) com conhecimentos mínimos que deveriam ser apreendidos por todos. Tal discussão também é polêmica, ainda mais quando se tem clareza sobre o conteúdo acima exposto. Nesse campo há duas correntes: aquela que prega o currículo mínimo, estabelecendo o que deve ser ensinado em todas as séries da educação básica e; os que acreditam que o currículo deveria ser construído localmente, atendendo às peculiaridades locais. Diante dessa discussão, acresce-se os exames externos (PISA, Prova Brasil e ENEM, por exemplo) que se baseiam em suas diferentes “Matrizes de Referência”.

           Quanto às Matrizes de Referência, essa discussão ganha escopo nos debates sobre o currículo, a partir do momento em que as Matrizes ganham maior conotação e importância sobre a prática pedagógica do que o currículo em si. Ou seja, na prática, trabalha-se em detrimento de atingir tal índice ou indicador, ao invés de se trabalhar para fazer com que o aluno atinja as competências e habilidades, o conjunto de valores e atitudes e as outras indicações que constam nos currículos.

            Sem querer se prolongar. Minha intenção é apenas trazer a discussão sobre esse assunto, e não provar academicamente essa ou aquela teoria, deixo como sugestão três vídeos para análise. O primeiro trata-se do currículo dentro do Projeto Político Pedagógico (algo que também precisa ser muito bem discutido, uma vez que muitos o encaram somente como burocracia), o segundo é um vídeo do programa Extra-Classe, sobre a diversidade e o currículo e, por fim o Programa Nota Dez, do Canal Futura, em episódio sobre a valorização da diversidade étnica e racial na educação infantil.

Como é possível perceber, discutir o currículo vai muito alem de falar das disciplinas e conteúdos, a complexidade dessa discussão precisa ser levada à linha de frente, ou seja, aos professores e estes precisam ser ouvidos pelo poder público.


Vejam os vídeos abaixo:

O projeto político-pedagógico e a gestão democrática - Vasco Moretto




Programa Extra-classe - Currículo e Diversidade





Programa Nota Dez - Diversidade na Educação


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS NÃO É MOTIVO PARA EXPULSAR ALUNOS

VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS NÃO É MOTIVO PARA EXPULSAR ALUNOS







Direito da criança em ter acesso à escola não pode ser suprimida pela imposição da presença do menor infrator


Recentemente fomos surpreendidos pela notícia que no Rio Grande do Sul, o Conselho Estadual de Educação e outros especialistas discutem a ideia de por fim à “expulsão escolar”. O fato surpreendeu por três motivos: primeiro que, na prática, a expulsão já não existe; o que existe é a transferência compulsória de estabelecimento de ensino, mediante a oferta de outra vaga; segundo que ninguém opta por reunir um Conselho de Escola e colocar tal punição por motivos fúteis, tais como: não fazer lição de casa, não ter um bom relacionamento ou ofender colegas ou professores (sim, isso hoje em dia é motivo fútil) e, por último é que, se a moda pega, esse vírus vai se alastrar por todo território nacional.

            Para quem não é do meio escolar, vamos apresentar como se dá o processo de “transferência compulsória de um aluno”.

Primeiro que todas as ocorrências que esse aluno teve devem ser devidamente registradas. Os pais devem ser estar cientes do que ocorre na escola e, numa ação em conjunto com os professores corrigir e orientar a criança ou o adolescente.

Aluno expulso

Quando o caso se torna insuportável e insustentável na escola, reúne-se o Conselho de Escola (em que há representantes dos professores, dos funcionários, dos alunos e dos pais), juntamente com a presença dos seus responsáveis e do aluno (para que haja ampla defesa) e dá-se a votação. Mas, o que são casos graves? Assédio moral ou sexual, tráfico ou consumo de drogas, agressões físicas, furtos ou roubos, enfim, tudo aquilo que não é condizente com o ambiente escolar. Em qualquer pais mais sério, tais casos teriam que ser resolvidos diretamente com a polícia e com o poder judiciário, e não em uma escola. Em se tratando de Brasil, resolve-se na escola e fica por ai mesmo.

No que concerne aos direitos do menor, a Constituição da República e o Estatuto da Criança e do Adolescente dizem que a educação é um direito e que cabe ao Estado prover esse direito, havendo inclusive a punição prevista para a sua não oferta. Entretanto, o que é possível fazer quando a presença de um menor põe em risco a segurança dos outros? O que fazer quando um aluno (se é que se pode chamar de aluno) impede com que outros tenham acesso às aulas?

O jovem que chega a uma situação extrema em que a única alternativa é a expulsão, denuncia o fracasso dos pais, da sociedade e da escola para com a sua educação, entretanto, a falta de clareza de que cada um deles tem que ter com a sua obrigação diante da sociedade só faz agravar os problemas escolares. A família é a grande responsável pela educação. O conjunto de valores e regras morais e éticos serão passados dentro dos padrões daquela família. A sociedade educa dentro dos seus padrões éticos e a escola tem a função primordial da educação formal, ou seja, a escolarização do educando. Se o primeiro falha, o efeito dominó sai derrubando todas as outras possibilidades de educação.

A escola deve ser acolhedora por sua própria natureza, mas quando não há condições mínimas de convívio social e esgotadas todas as demais possibilidades, a solução menos prejudicial ao coletivo é a expulsão. Um ato necessário por preservar o bem de todos e garantir as condições mínimas de trabalho e salubridade. Não deve ser possível evitar a expulsão de um jovem desse naipe, pois estaremos comprometendo a segurança dos demais alunos e professores.

São inúmeros os relatos de violência contra colegas e professores, casos até noticiados pela mídia e muitos outros que não chegam a ser divulgados, e não precisa ser intelectualizado para perceber isso.

Devemos considerar que a mudança de ambiente para o aluno infrator pode até ser benéfica, já que sem as mesmas amizades e inimizades por perto ele se sinta menos agredido e com isso ser levado a uma reflexão dos seus atos.

Queremos salientar que não estamos falando de casos genéricos de indisciplina sem maiores consequências, estamos falando de agressões físicas, verbais, explícitas ou veladas, e mais grave ainda, o tráfico de drogas dentro da escola.

São casos extremos onde a escola é totalmente impotente na solução, e nem deveria ser potente, uma vez que a escola não é consultório, delegacia ou centro de assistência social.

Estranhamente os psicopedagogos, mais precisamente a diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Sra. Maria Teresa Messeder Andion, cuja coerência deveria se fazer diante da análise global dos problemas escolares, mas que resumiu essa discussão à falha institucional, ou seja, falha da escola que não motivou esse aluno e não ofereceu a ele aulas diferenciadas. Vitimizam o jovem infrator a exemplo de outros infratores, eximindo a culpa pela má educação por parte dos responsáveis e até mesmo a omissão dos mesmos; imputando toda responsabilidade à escola.

A Constituição é clara, todo jovem tem direito à educação e realmente a escola não pode se furtar a isso, para tanto, no caso de expulsão do aluno a mesma pode (ou deve) vir acompanhada de uma vaga em outra instituição escolar. Cabe lembrar que, atualmente essa responsabilidade de arrumar outra vaga para o aluno, recai sobre o diretor da escola (sic), ou seja, continua sendo responsável pela (má) educação desse sujeito.

Só para levantar uma “lebre”, em uma escola particular, por muito menos há a expulsão do aluno, e a legislação que a rege é a mesma, e o mais agravante é que este vem na maioria da vezes parar na escola pública, porque o responsável não está mais disposto a “gastar dinheiro”; embora muitas escolas primam pelo “aluno pagador”, há escolas em que realmente existe a necessidade da expulsão, e elas o fazem, sem direito a recurso, sem remorso e sem que haja defensores apaixonados pela má qualidade da escola pública. Considerando que vivemos em uma democracia liberal, porque o sistema escolar público deve “segurar a bronca”?

Ps. Para quem quiser saber um pouco mais sobre esse assunto, leia os seguintes artigos:
Para onde caminha a humanidade?
Para onde caminha a humanidade II?

Deixe suas críticas e sugestões nos comentários. Vamos construir um debate!

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química
omacam@gmail.com

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo
Consultor e assessor pedagógico
ivanclaudioguedes@gmail.com


CAMARGO, O.; GUEDES, I.C. Pelo direito de expulsar um jovem infrator da escola. Gazeta Valeparaibana[online], São José dos Campos, 01 set. 2014. Espaço Educação. Disponível em: http://www.gazetavaleparaibana.com/082.pdf Acesso em 03 set. 2014.

domingo, 20 de julho de 2014

PARA QUÊ SERVE A ESCOLA?

PARA QUÊ SERVE A ESCOLA?

A função da escola é discutida por muitos, mas compreendida por poucos.



A princípio a resposta à pergunta acima é fácil de responder. Alguns dirão que é para preparar para a vida. Outros dirão que é para ensinar conteúdos. Outros dirão que é para educar. Muitas respostas prontas vêm à cabeça e todas elas parecem convergir. A própria legislação caminha nesse sentido, uma vez que a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 dizem que a função da escola é preparar para o “pleno exercício da cidadania e para a qualificação para o mercado de trabalho”. Entretanto, de qual tipo de cidadania estamos falando? O que é cidadania? Qual tipo de mercado de trabalho?






            Preparar um aluno para a cidadania é complexo e contraditório se nos perguntarmos “o que é cidadania?”. Uma cidadania limitada ao voto bianual? Uma cidadania em que não se pode questionar nossos representantes porque, mais cedo ou mais tarde, acabará preso? Uma cidadania forjada na “representatividade” do voto em que escolhemos entre os escolhidos pelos seus pares? Uma democracia baseada em um agrupamento de leis que não servem para o povo? Uma democracia contaminada pelo preconceito étnico, econômico, de gênero e intelectual? Que tipo de democracia estamos falando?

Uma escola unida por todos os povos


            E o que é mercado de trabalho? Aquele em que “todos têm oportunidades”? Oportunidades para quê? Para trabalhar em uma loja ou para ser banqueiro? Para lavar carros ou para ser dono de montadora de veículos?

            Para aqueles que trabalham com a escolarização existem normas, regras, currículos, programas e projetos. Entretanto, o professor cai em um constante senso comum ao não se perguntar qual é o real objetivo do seu trabalho. Todo currículo traz uma ideologia, toda disciplina é repleta de ideologia, independentemente de qual tipo de ideologia estamos abordando, todo documento tem. Aquele que recebe e trabalha com esses documentos também carrega seu conjunto de valores morais e éticos, também carrega sua ideologia, suas angústias e suas intenções. Seus preconceitos e suas ideias.

            Na ponta deste processo há o aluno.  O aluno, assim como o professor, também carrega seu conjunto de valores, também possui suas aspirações, seus preconceitos, suas ideias e seus valores. Ao entrar em contato com a escola, tudo aquilo que ele acredita é colocado em prova. O currículo o coloca em uma forma para que ele saia “formado”, dentro dos padrões estabelecidos, ou seja, dentro do “script social” (como diz P. Ghiraldelli Jr.).

            Mas, voltando ao assunto, para quê serve a escola? Que tipo de sociedade querem que se forme? Florestam Fernandes afirma que “feito a revolução nas escolas, o povo a fará nas ruas”. Frase difícil de compreender, uma vez que todos que estão dentro da escola fazem parte do “povo”. O conflito de interesses dentro do ambiente escolar é tão grande que é quase impossível mensurá-lo, e não dá para fazê-lo por decreto, pois existe o fator “humano”, que pensa, que atua e que questiona o que está escrito. Mesmo aquele mais bem intencionado quando elabora uma política pública, um currículo ou uma legislação não consegue sanar todas as angústias da sociedade, sendo assim, sempre haverá essa discussão sobre a função da escola.


            Cada núcleo da sociedade tem uma aspiração: os humanistas querem uma escola voltada à cidadania, os empresários querem melhores funcionários, os marxistas querem a revolução, os cientistas querem mais ciência na escola, alguns querem o controle social, outros querem a liberdade social. Falta um modelo, falta um norte, ou seja, antes de se pensar em um modelo de escola, falta ser construída uma sociedade. 

Ivan Claudio Guedes, 34. Geógrafo e Pedagogo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

SOBRE FALTAS E EVASÃO ESCOLAR: A responsabilização da Escola

No mês de Janeiro de 2014 publicamos o artigo “Quem é o maior responsável pela educação do meu filho?” e tal artigo gerou uma discussão que não foi o nosso objetivo. Não tivemos como pretensão discutir os “porquês” dos alunos não frequentarem a escola. Não tivemos como objetivo discutir o sistema escolar e a falta de vontade em estudar. Tivemos, sim, como meta apresentar os aspectos legais sobre a frequência do aluno à escola, e isso foi bem exposto.



            Chegamos à conclusão de que a escola é o grande responsável por acompanhar, orientar e, se necessário, acionar o Conselho Tutelar e/ou o Poder Judiciário para que a criança e o adolescente estejam dentro da escola. A tarefa de acompanhar sistematicamente a presença dos alunos é árdua e trabalhosa. Nas escolas públicas os números de alunos variam de 1.000 a 2.000 alunos. O acompanhamento sistemático é difícil diante das diversas tarefas que os professores, coordenadores, orientadores educacionais e diretores realizam rotineiramente, isso sem contar as tarefas que não estão na rotina administrativa tais como: atendimento inesperado de pais de alunos, brigas entre alunos, materiais que somem, solicitações diversas de outros órgãos, etc. Entretanto é preciso incluir na rotina administrativa o acompanhamento sistemático da frequência escolar, pois ao chegar ao final do ano ou no término do bimestre, o pai ao ser comunicado que seu filho está há algum tempo faltando à escola, tem como primeira reação impulsionar a responsabilidade da comunicação à escola. E não está errado.

            Para uma escola de ensino fundamental II e médio em que os alunos tem cinco ou seis aulas por dia, com cinco ou seis professores diferentes por dia se torna inviável acompanhar diariamente de oito a doze diários, ainda mais com escolas que funcionam com quinze ou vinte salas por período (três períodos por dia).

            Em escolas particulares em que o número de alunos e de salas é menor, e o número de funcionários é maior, torna-se mais fácil fazer este acompanhamento, entretanto é necessário lembrar que a quantidade de ausências é bem menor e, via de regra, conhecem-se os alunos e seus pais pelo nome e sobrenome.

            É fato que o acompanhamento dos pais causa muita diferença na vida do escolar do seu filho. Mesmo na rede pública, o acompanhamento escolar dos pais, avós, tios ou um irmão mais velho traz para o aluno a visão de que ele está sendo acompanhado e cobrado pelas suas tarefas, por isso é importante apresentar e executar alguma estratégia que os tragam para a vida escolar das crianças e adolescentes.

            No caso da escola pública com uma grande quantidade de alunos e de salas é possível realizar tarefas simples, que vai custar algum tempo, mas que vai diminuir muito o problema do excesso de faltas e a evasão escolar (sem a ciência dos pais -, por vezes, é preciso lembrar, que os pais também são coniventes).

            Uma pasta simples, com um quadro dividido em datas, e folhas impressas por semana, é possível marcar a chamada dos alunos e verificar, logo na segunda feira subsequente, quem teve muitas faltas. Orientamos para que os alunos que tiverem 2 faltas na mesma semana, deverão ter seus pais comunicados, mesmo pelo telefone. Ao realizar o telefonema, anote o horário e o nome de com quem conversou. A anotação deverá ir para o prontuário do aluno para que não se perca no meio de “livros de controle”. Se não for possível colocar tais controles nos prontuários da secretaria, a coordenação pode criar sua própria gaveta de prontuários de acompanhamento pedagógico (com as fichas de aproveitamento, faltas, ocorrências escolares, etc.).


Acreditamos que o acompanhamento sistemático possa trazer bons frutos no que diz respeito à falta do aluno. Concomitante a isso é necessário investigar as causas de tal falta de interesse dos alunos e partir para outra frente de batalha, mas isso já é outra conversa.




OMAR DE CAMARGO
Técnico Químico
Professor em Química
decamargo.omar@gmail.com

IVAN CLAUDIO GUEDES
Geógrafo e Pedagogo
Articulista e Palestrante
Especialista em Gestão Ambiental, mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
icguedes@ig.com.br

Artigo publicado originalmente em http://www.gazetavaleparaibana.com/075.pdf - p. 9

Para referenciar este artigo:
CAMARGO, O.; GUEDES, I.C. Sobre faltas e evasão escolar: A responsabilização da escola. Gazeta Valeparaibana. Ed. 75. Ano VII. Disponível em , 2014, p. 9.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

QUEM É O MAIOR RESPONSÁVEL PELA EDUCAÇÃO DO MEU FILHO?

Recentemente foi divulgado nas redes sociais que um juiz de Goiás multou uma mãe pela omissão na educação do seu filho. Em Fernandópolis-SP, um juiz da Vara da Infância causou polêmica muitas vezes por multar igualmente os pais que não exerciam poder familiar sobre seus filhos.

Sabemos que a educação é complexa e possui várias ramificações. É preciso respeitar o choque de gerações, culturas e preceitos étnicos e religiosos, mas não é neste ponto que queremos discutir. Queremos discutir o acompanhamento das crianças dentro do ambiente escolar. Queremos discutir a responsabilização
dos pais diante dos atos dos seus filhos.

Primeiramente devemos expor o que se entende por escola. Apresentamos duas linhas opostas: (1) a escola enquanto depósito de crianças, onde os pais colocam seus filhos para se verem livres por alguns momentos e, (2) a escola enquanto espaço de formação acadêmica e de desenvolvimento intelectual e corporal.

Se aceitarmos a escola dentro da perspectiva do primeiro ponto, é melhor parar por aqui e não será preciso discutir nada. Entretanto, é no segundo ponto que devemos nos focar. Tratar a escola enquanto um espaço de desenvolvimento sociocultural do indivíduo.

Muitas vezes os pais pensam que ao colocar seu filho dentro da escola, tudo caminhará normalmente, sem choques de interesse, sem stress, sem brigas com os colegas, sem falta de materiais, sem quaisquer atos de indisciplina ou de falta de educação. Entretanto, é sabido que a escola é reflexo da sociedade e que
a sociedade de reproduz dentro da escola, portanto, chega ser natural a existência de conflitos sociais dentro deste ambiente.

Mas o que fazer quando os pais não garantem a presença do seu filho na escola? O que fazer quando os pais não garantem a manutenção dos estudos e a conduta do seu filho? O que fazer quando os pais não acompanham a vida escolar do seu filho? O que fazer quando os filhos controlam os pais?

Do ponto de vista legal vamos nos apoiar basicamente na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CR), no Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990 (ECA) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDB). Do que nos interessa para explanar esse artigo recomendamos a seguinte leitura: CP – Art. 205 ao 214, ECA – Art. 54 ao 56, 112 ao 117, 129 ao 138, 245 e 249,
LDB – Art. 5, 6 e 12.

A nossa legislação a partir de 1988, pós regime militar, foi baseada dentro de uma concepção de Estado de Bem Estar Social (Welfare State), onde o Estado assume as responsabilidades pela condução da sociedade. Acontece que anos após 1988, o que vivemos é um intenso regime de assistencialismo paternalista onde o Estado (sem estrutura e sem competência) assume, inclusive, a educação sobre a sociedade. Entretanto, é preciso frisar que a mesma legislação também compartilha sua responsabilidade com os pais, a família e a
sociedade, ou seja, todos são responsáveis pela educação das crianças.

Observe que a legislação sempre aponta a responsabilidade do Estado em zelar pela chamada, acompanhar o desenvolvimento do aluno, primar pelo seu desenvolvimento, etc. observe também que os pais sempre são chamados à responsabilidade, mas de nada adianta estar na legislação se não se faz valer. Fazer valer a legislação é convocar os pais sempre que necessário, enviar bilhete, telefonar e enviar carta registrada via correio, se mesmo assim os responsáveis não comparecerem, deve-se encaminhar ao Conselho Tutelar. Se o menor continuar faltando sem justificativa, deve-se encaminhar novamente, e assim deve ser quantas vezes for preciso. É necessário deixar bem claro que neste momento o professor (neste caso, representante legal do Estado), está fazendo valer a legislação citada, as medidas administrativas deverão ser tomadas pela
autoridade competente (neste caso, o Juiz da Vara da Infância e da Juventude).

Ainda que o caminho possa parecer tortuoso, trabalhoso e burocrático (e é), a escola deve-se prover dos meios necessários para que enquanto “Estado” cumpra com o seu papel determinado. O que vemos cotidianamente é a omissão deste acompanhamento sistemático por conta de diversos outros fatores que envolvem o trabalho docente e o trabalho administrativo de uma escola.

Agora, vamos supor que nada disso tenha sido feito e que ocorra algum problema com a criança ou adolescente na rua. Pois bem, a Polícia Militar encaminhará para a delegacia onde será lavrado o boletim de ocorrência sobre o fato, em seguida será verificado porque o menor estava na rua, adiante será averiguado
porque os pais não foram comunicados. Depois, porque o Conselho Tutelar não foi levado à ciência e, por fim, a escola poderá ser responsabilizada sobre o seu não cumprimento do papel de zelar pelo(a) menor.
Pois bem, professor(res) (igualmente coordenadores e diretores), se vocês não atentarem ao que foi escrito acima, poderão ser responsabilizados pela má educação dos filhos dos outros.

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
decamargo.omar@gmail.com

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo.
Articulista e Palestrante.
Especialista em Gestão Ambiental. Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
icguedes@ig.com.br

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

SÍNDROME DA AMNÉSIA PEDAGÓGICA

SÍNDROME DA AMNÉSIA PEDAGÓGICA


Você já reparou quantas visões diferentes há sobre uma mesma escola? Já parou para analisar a opinião dos seus colegas sobre seu próprio trabalho? Já trocou ideias com outros trabalhadores da educação para ver quantas opiniões diversas há sobre o trabalho docente? Há algum tempo temos percebido as diferentes visões que pairam sobre o sistema educacional. Para didatizar vamos englobar os grupos, mesmo sabendo que não é correto fazê-lo, pois sempre há uma exceção à regra.

Síndrome da amnesia pedagógica


O primeiro grupo é dos professores. Esse grupo constitui o corpo docente, professores egressos das faculdades e universidades e que tomaram nota de uma vasta literatura tanto na sua área de formação específica (no caso dos professores especialistas) quanto pedagógica (no caso dos pedagogos). Passaram de 3 a 4 anos lendo e relendo teorias e conceitos. Fizeram planos de aula, técnicas de ensino e estudo de metodologias, mas ao chegar à escola fizeram uso do livro didático e do currículo escolar tal qual uma bíblia ou uma camisa de força. Limitaram-se a entrar em sala de aula, passar o texto na lousa (ainda que os alunos tenham livros) e mandar os alunos responderem questões. Em seguida, aplicam a prova (quando o fazem) e partem para o capítulo seguinte. Seu posicionamento com a direção é sempre crítico. Acham defeito em tudo: classificam a gestão escolar como incompetente, omissa, preguiçosa e enrolona, cumpridora cega de ordens do governo e por aí vai.

O segundo grupo é da gestão escolar. Esta dividida entre vice-direção e direção, coordenação pedagógica e supervisão escolar (englobando aqui todo o núcleo da diretoria de ensino, secretaria de ensino ou delegacias de ensino – dependendo da região). Este grupo tem a incumbência de organizar e administrar a escola, desde o projeto pedagógico, as finanças, prestação de contas, logística, fluxo de alunos e execução do projeto pedagógico. De formação igual ao do professor em sala de aula esses profissionais tendem a classificar o professor como enrrolão, preguiçoso, sem liderança, incompetente na sua função, sem postura e por aí vão os adjetivos negativos. Obviamente que a percepção daqueles que estão nas secretarias de ensino (ou diretorias regionais de ensino) é semelhante àqueles que estão na direção da escola e/ou na coordenação pedagógica, e o sentimento destes em relação àqueles também é mútuo.

Mas enfim, o que acontece para que exista esse jogo de empurra-empurra? Essa terceirização da responsabilidade do trabalho? Para melhor analisar este momento vamos lançar uso de um novo conceito que denominamos como a “Síndrome da Amnésia Pedagógica” (SAP). Esse conceito, até então desconhecido expressa o esquecimento de uma função, fazendo o profissional rapidamente cair no trabalho via senso comum, projetando nos outros os problemas causados pela sua função. Não obstante, esse ainda passa a trabalhar como um mero reprodutor do sistema cumprindo “sua função”.

No caso dos professores, esses se limitam a transcrever aquilo que os manuais indicam. Esquecem-se das metodologias, não conhecem (ou esqueceram) as tendências pedagógicas, os estudos filosóficos, sociológicos e psicológicos sobre a educação e/ou a História da educação.

No caso do segundo grupo, seu trabalho limita-se a tocar papel, preencher relatórios, responder estatísticas, gerar papel e papel, bater carimbos e fazer assinaturas em mais papeis.

Ao que tudo indica, quando o sujeito troca de função, tem-se a impressão de que este troca “de caverna” (fazendo alusão ao mito da caverna de Platão). Em pouco tempo de trabalho na nova função ele esquece o que aprendeu (ou deveria ter aprendido) na faculdade e limita-se ao descrito acima (reproduzir “o sistema”) e criticar os outros. Já o caso do segundo grupo é mais sério, pois os mesmos passaram por um bom tempo pela experiência da sala de aula e ao sair dela são acometidos da SAP onde passam a enxergar tudo com bons olhos e terceirizar o problema da educação, principalmente, aos professores.

Queremos chamar a atenção dos leitores para esse fato, que é de certa forma corriqueiro no meio escolar. Demos o nome de SAP ao esquecimento, momentâneo ou não, daquilo que já se fez ou professou em sala de aula quando da ida para uma função na gestão escolar, ou da volta à sala de aula. É interessante, pois o profissional nessa situação não percebe-se dessa forma e, com certeza, nos diria que estamos “viajando na maionese”. O curioso dessa situação é que todos independentes da função que exerçam na escola, deveriam remar para um mesmo sentido, de maneira que o resultado fosse aparente. O que vemos na realidade é que são diversos remadores, mas que o barco fica virando em volta, pois uns remam num sentido e outros noutro sentido. Isto porque, no nosso modo de ver, todos estão imersos no que chamamos de senso comum, sem a coragem de realizar algo novo, diferente. E qual é o senso comum nesse caso? É que a culpa sempre é dos outros e não nossa. É a terceirização da responsabilidade. Não podemos e, principalmente, não devemos esquecer que toda moeda tem dois lados e não são iguais. Se conseguirmos transcender nossos problemas pessoais e nos percebermos como um grupo, cujo interesse é a qualidade do ensino, evidentemente o barco irá andar num sentido apenas. Rumo ao sucesso.

É importante dizer que o jogo de empurra-empurra não vai levar ninguém a lugar algum, e que, se realmente quiser uma educação de qualidade o professor (independentemente da função que ocupa) deverá continuar estudando. Precisará sair do senso comum, da sua zona de conforto, mas se mesmo assim a SAP não for curada, recomendaremos sair da profissão e deixar para realmente quem está trabalhando com seriedade.

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
Articulista e palestrante.
icguedes@ig.com.br

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
Pós-Graduado em Química.

decamargo.omar@gmail.com

Para referenciar este artigo:

GUEDES, I. C.; CAMARGO, O. Síndrome da Amnésia Pedagógica. Gazeta Valeparaibana. Ed. 69. Ano IV. Disponível em: http://www.gazetavaleparaibana.com/069.pdf Ago, 2013, p.09.   

domingo, 21 de abril de 2013

A PARALISAÇÃO DOS PROFESSORES E OS PROFESSORES PARALISADOS

A PARALISAÇÃO DOS  PROFESSORES E OS  PROFESSORES PARALISADOS:  

Reflexos de uma crise.


Desde o final de 2011 que ouvimos falar em uma mobilização nacional para forçar os Estados, os Municípios e o Distrito Federal a cumprirem a Lei n. 11.738 de 2008 (chamada Lei do Piso) que institui nos seus oito artigos o piso salarial nacional dos profissionais do magistério público da educação básica, a composição da jornada de trabalho, reservando o limite máximo de 2/3 da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos e 1/3 em Aula de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC) e Aula de Trabalho Pedagógico Livre (ATPL) e, também sobre o Plano de Carreira. Pois bem, desde 2008 que vem se travando a discussão sobre essa Lei, e pouquíssimos Sistemas de Ensino vem cumprindo-a integralmente. Alguns cumprem a parte do salário, outros cumprem com o Plano de Carreira. Não conhecemos nenhum que cumprissem com as horas de atividade com alunos. 


 O que nos chamou a atenção foi a ausência desse debate desde que a Lei foi publicada em 2008. Nas escolas foram raras as oportunidades de discussão durante as Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC), agora denominadas ATPC. Nas redes sociais, também pouco se falou. Entretanto, há alguns meses esse debate ganhou espaço (nas redes sociais). Indiferentes a isso, continuamos sem debater esses assuntos nas escolas. 

 O tempo foi passando e a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) convocou uma paralisação nacional para os dias 14, 15 e 16 de Março de 2012. Desde o início de 2012 que estamos acompanhando essa tentativa de mobilização.

Independentemente do corrente ano eleitoral e dos interesses políticos e, sobretudo partidários que permeiam esse debate, gostaríamos de centrar nosso foco sobre a figura do professor e sua formação filosófica, ou política. Já faz algum tempo que as ciências humanas perderam sua função na educação básica (se é que alguma vez, realmente tiveram essa função) que é a de proporcionar ao aluno uma reflexão crítica e autônoma sobre os acontecimentos sociais. Com a expansão descontrolada e a monetarização desenfreada do ensino superior no Brasil as ciências humanas também perderam seus espaços (inclusive dentro dos próprios cursos de ciências humanas). É comum hoje verificar cursos de Pedagogia, Filosofia, História, Geografia, Letras, Sociologia, entre outros, uma formação a “toque de caixa”, sem que haja leituras essenciais para a formação deste profissional ou debates em torno das ideias centrais do seu ramo de atuação. Isso posto, é de se esperar que o futuro profissional não domine sua área de atuação e seja um trabalhador “meia boca”. Para deixar mais claro, é possível citar José Carlos Libâneo (Adeus Professor, Adeus Professora? Novas exigências educacionais e profissão docente. Ed. Cortez, 1998) em que no terceiro capítulo o autor faz uma brilhante análise da desprofissionalização do docente, mediante o sistema neoliberal de ensino. Em que o professor é formado sem que haja condições deste partir para o mercado de trabalho plenamente qualificado e, sendo assim, também formará alunos sem qualificação. 

 O que queremos discutir aqui é que os professores, diferentemente de outras categorias (tais como os metalúrgicos, os petroleiros, os mineradores, os caminhoneiros...) não sabem, ou não querem, brigar pelos seus direitos trabalhistas. Talvez a sensibilidade do professor diante do turbilhão de atividades e controvérsias que permeiam seu trabalho tenha diminuído seu interesse em formar cidadãos livres e conscientes do seu papel social. Entretanto, cabe outra citação. Desta vez, verificamos em Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido. Ed. Paz e Terra, 1987) é dito que é preciso ensinar ao oprimido que ele o é, e portanto, a partir da sua consciência de oprimido adquirida, o mesmo tenha condições de emancipar-se intelectualmente. Pois bem, fazse a questão: Como ensinar a um oprimido que ele o é, se o professor também o é e não sabe? 

Como criar uma sociedade emancipada e democrática se o professor, papel central neste processo, não é emancipado e muito menos democrático? Como formar um aluno crítico e consciente dos seus deveres e direitos se o professor também não tem consciência dos seus? 

As faculdades não proporcionam tal formação para seus alunos, por conta de um currículo enxuto, mensalidades baixas para atrair qualquer tipo de aluno-pagante, salas superlotadas (100 – 150 alunos, sem exagero), professores mal remunerados, e portanto, sobrecarregados de aulas e sem estímulo para continuarem sua formação (até porque se continuarem a formação se tornarão profissionais mais caros), falta de pesquisa e publicações acadêmicas, cortes de custos a qualquer preço, a quantidade e o lucro em detrimento da qualidade do ensino, são alguns dos fatores que contribuem para o círculo vicioso, má formação gerando má formação, ou seja, o professor mal formado no ensino básico, também é mal formado no ensino superior e vai contribuir com a má formação no ensino básico. 

Se formos analisar a situação sob esta ótica, veremos que os sindicatos e seus diretores, pessoas astutas e possuidores de uma oratória invejada, utilizam-se deste círculo vicioso na razão direta dos seus interesses políticospartidários, pois sabendo que o professorado é mal formado politicamente e também não 
consciente da sua posição de formador de opinião, usam os mesmos como massa de manobra, assim como o governo, usa desse expediente para reforçar o círculo vicioso que resulta na má formação do aluno que por sua vez ao se formar numa faculdade também terá grandes chances de ser um mal profissional. 





Tal situação, a má formação do professor, foi no citada no “Jornal da Educação” em sua edição on-line nos idos de 2007 onde é dito que os mestres e doutores, responsáveis pela formação dos profissionais da educação, deveriam assumir parte na responsabilidade da má formação dos alunos da educação básica, 
pois eles tem participação nesse processo, haja visto que eles formam os professores. O mesmo jornal cita ainda a possibilidade, caso o governo fosse sério (adendo nosso), de que todos os professores poderiam ser chamados a fazer atualizações e especializações GRÁTIS (grifo nosso). Impossível? Não nos parece. Afinal seria uma bela demonstração de seriedade. Alguns, menos avisados, poderiam aventar de que o governo já proporciona bolsa mestrado e doutorado para os professores da rede. Mas, isso é em número reduzido e insignificante para uma rede de aproximadamente 200 mil profissionais da educação. É necessário mais, muito mais. 

Segundo Cunha (CUNHA, M. I. Aprendizagens significativas na formação inicial de professores: um estudo no espaço dos Cursos de Licenciatura. Artigo on line, disponível em http://168.96.200.17/ar/libros/anped/0425T.PDF), ”Não são os conteúdos ou as informações que carregam as relações sociais que geram a reprodução social ou cultural, mas a forma de transmissão, entendida como a teia de relações de poder e de subjetividade que a permeiam”. Daí deduz-se que o especialista recém-formado, muitas vezes, não detém a capacidade necessária para a devida transmissão do conhecimento adquirido. Ele é de fato um especialista em sua área, porém em um mundo globalizado e contextualizado, como o de hoje, talvez fosse necessária uma formação acadêmica global. 

Seria o professor do tipo “canivete suíço”. Como um professor desse naipe, provavelmente, custaria mais caro às universidades e faculdades elas acabam optando por aqueles que possuem o conteúdo, porém vazios de competência. Onde isso irá desembocar? Claro, evidentemente na má formação do aluno do Ensino Básico.

Ainda referenciando Cunha, ”esse profissional mal preparado vai encontrar dificuldade para se encaixar no mercado. Vai, então, para a especialização na Pós-Graduação. Escolhe uma área específica, forma-se, e vai dar aula. Seu método será o mesmo utilizado pelo professor que ele teve durante a graduação. E a inovação? Sem ela, não há mudança.” De fato, como o professor ,durante a sua especialização, não inovou em nada, há de se entender que nada irá mudar e ele agora com diploma na mão irá ensinar exatamente aquilo que aprendeu e da forma que aprendeu. Faz-se necessária uma ruptura epistemológica que permita reconfigurar os conhecimentos para além das regularidades propostas pelo paradigma da modernidade. Percebemos então que, o balaio é muito maior do que imaginávamos inicialmente.

Por fim, podemos concluir afirmando que há interesses por parte de alguns grupos sociais para que a formação inicial e continuada do professor seja de baixa qualidade. Há interesses políticos e econômicos evidentes para que a formação da educação básica seja de baixa qualidade. Esses interesses partem de diversos lugares, tanto do Governo, quando dos sindicatos e das empresas que precisam de mão-de-obra semi qualificada e barata. Para quebrar esse ciclo só existe um meio: Estudar. Amigo professor, é preciso estudar mais! 

Publicado em http://www.gazetavaleparaibana.com/065.pdf p. 9

Autores:
Prof. Omar de Camargo
omacam@professor.sp.gov.br
Prof. Ivan Claudio Guedes
icguedes@professor.sp.gov.br

domingo, 1 de julho de 2012

A QUEM INTERESSA UMA EDUCAÇÃO SEM QUALIDADE?

A QUEM INTERESSA UMA EDUCAÇÃO SEM QUALIDADE?

As discussões sobre a função da escola deve ultrapassar os muros da escola e tomar espaços nas ruas.

        
    Em 2008 o então Ministro da Educação Sr. Tarso Genro, hoje Governador do estado do Rio Grande do Sul; lançou, com toda a pompa, o Plano Nacional de Educação (PNE), para o decênio 2010 - 2020. As dezenas de metas não alcançadas no primeiro PNE (2000-2010) fizeram com que esse outro plano fosse mais objetivo e enxuto, ou seja, passível de ser alcançado. Entretanto, como estamos em um país em que tudo é demorado, moroso e eleitoreiro, algo tinha que dar errado. Das vinte metas estabelecidas, justamente a 20º meta travou todo o sistema.

            Em 16/03/2010 o jornal O GLOBO publicou que em 2008, o investimento público em educação era de 4,7 % do PIB e isso refletia um crescimento de 0,2 % em relação do ano anterior. Na ocasião entidades e especialistas, inclusive a ONU, através do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), recomendavam que o percentual, deveria ser de 8 % do PIB. Em abril do mesmo ano a CONAE (Conferência Nacional de  Educação) se reuniu para tratar das diretrizes no novo PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (PNE). Especulações a respeito diziam que o percentual deveria ficar entre 10 e 12 pontos percentuais do PIB. Já se fazia sentir, na época, que a defasagem do investimento na educação pública provocaria um déficit educacional gravíssimo caso não fosse o percentual melhorado, e bastante. Daniel Cara, então presidente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, defendia um patamar maior do que 6% e o que estava sendo apresentado pelo Ministro Tarso Genro não garantia a qualidade preconizada pela LDB e pela Constituição Federal.


            Após muitas idas e vindas, o atual PNE foi apresentado ao Congresso em 15 de dezembro de 2010. Porém, o Plano foi gerado na administração do Sr. Tarso Genro, sendo consumado na gestão do ministro Fernando Haddad. De lá para cá muito se tem falado e modificado o plano. O plano foi gerado em 2008, apresentado ao congresso nacional em 2010 e estamos em 2012. Ou seja, quatro anos se foram sem que o plano fosse rejeitado ou aprovado em definitivo. Apresentaram “N” motivos para tal morosidade na aprovação desse plano, e nesse contexto, perguntamos:





             - A quem interessa que continuemos com os problemas tão decantados em verso e prosa nesse país? Se um monte de especialistas e não especialistas em educação sabem onde estão os problemas da educação e como fazer para resolvê-los, porque não é feito?


            Durante as discussões do PNE vários movimentos sociais discutiram a viabilidade de aplicar-se 10% do PIB nacional, na educação. Ótimo! Aliás, seria ótimo. Se não fosse  dois grandes problemas – a má utilização dos recursos públicos e a corrupção.


            Bem sabemos da ganância dos nossos governantes pela reeleição e pela continuidade dos seus mirabolantes planos que nunca resolvem nada é assombrosa.


            Atualmente somos a 6ª maior economia do mundo e ocupamos a 88ª posição no ranking de educação, segundo avaliações externas. Mas, a sexta posição no ranking dentro de pouco tempo não irá perdurar, pois sem a formação de pessoal capacitado ficará difícil manter essa situação.


Parece-nos que tudo faz parte de um plano muito bem elaborado para manter a população sob o jugo paternalista do governo, pois teremos mais e mais benesses do governo com a finalidade de suprir a falta de capacidade das pessoas de se manterem em empregos, ou seus filhos na escola, ou de ter acesso à saúde, ou ainda de ir e vir com segurança. Logo, logo inventarão o Bolsa Segurança, o Bolsa Saúde ou sabe-se lá mais o quê. Percebam que se isto acontecer os beneficiados acharão tudo lindo e maravilhoso e darão uma solução de continuidade ao processo político eleitoreiro.


            Então somos nós do Programa “E agora José ?” que somos intolerantes ? Ou chatos? Ou ainda como nos disseram certa vez – “vocês criticam qualquer coisa”. Percebam que ao que tudo indica existe sim uma manobra sórdida por trás desses planos mirabolantes. E sempre que muda o governo as políticas educacionais mudam, como  se o antecessor nada soubesse de educação.


            Consideramos o tripé: Educação, Saúde e Segurança como políticas apartidárias, ou seja, acima dos interesses políticos. Há um interesse maior do que qualquer partido. É o país. Mas, ao que tudo indica os políticos fogem do povo culto e consciente assim como o diabo foge da cruz. Claro, isso é perfeitamente compreensível, pois se o povo se tornar culto, consciente de seus direitos e deveres não haverá mais espaço para esses políticos de fachada.
            Parece-nos que estamos numa sinuca de bico!


            Se a cada ano que passa, mais e mais jovens são despejados no mercado trabalhista e notoriamente sem condições de irem adiante em seus estudos. Quando conseguem adentrar a uma faculdade se deparam com um grande e enorme ensino médio que leva o nome de ensino superior. Qual a qualidade desse universitário? Em se tratando de licenciandos qual é  prática que ele irá levar aos seus futuros alunos? Parece-nos um grande círculo vicioso, ou melhor uma grande espiral que gira em descendente sem fim, que discutimos há dois meses nesse mesmo jornal (Os professores e a lei, Gazeta Vale Paraibana, Ed. 53, Abril/2012, p. 13.).


O que nos deixa pasmos, perplexos mesmo é o não comprometimento dos nossos políticos com o país. Em momento algum eles esquecem-se de seus partidos políticos, mas raramente se lembram de que o país precisa começar agora a sair dessa espiral que nos arrasta ralo abaixo. Corremos o risco de em breve importamos mão de obra especializada por simples falta de empregados capacitados. E não será com planos mirabolantes  ou com o aumento da parcela do PIB que iremos resolver isso. O problema é bem maior do que isso. Como dissemos não é quantidade de dinheiro e sim como ele é gasto. É na verdade a má administração do dinheiro público além, claro, da corrupção que parece enfronhada na pele dos políticos.


Considerem ainda que nem falamos da falta de um plano de carreira estimulante para os professores, o que poderia acrescentar pontos positivos na solução do problema. Não falamos dos baixos salários. Não falamos da falta de condições de trabalho nas escolas públicas. Não falamos da total falta de infraestrutura das escolas de período integral e das escolas normais. Como se tudo isso não bastasse esbarramos também em maus profissionais.


Mas, nesse momento, não queremos nada disso. Só queremos que o PNE saia do papel logo e comece a ser colocado em prática.


O texto na íntegra do PNE pode ser acessado em http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/noticias/12514/mec-divulga-plano-nacional-de-educacao-2011-2020


Omar de CamargoTécnico Químico
Professor em Química
Pós-Graduado em Química
omacam@professor.sp.gov.br


Ivan Claudio GuedesGeógrafo e Pedagogo, especialista em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
Vice-Diretor de escola da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo.
Professor do curso de Pedagogia da Faculdade Método de São Paulo.
Palestrante e consultor nas áreas de Meio Ambiente e Educação.
icguedes@ig.com.br
Ambos apresentam o Programa E Agora José? Aos domingos das 18h as 20h no http://www.culturaonlinebr.org

Este texto foi publicado originalmente no jornal Gazeta Valeparaibana. p. 13 http://www.gazetavaleparaibana.com/056.pdf

domingo, 22 de abril de 2012

MOBILIZAÇÃO DOS PROFESSORES

MOBILIZAÇÃO DOS PROFESSORES

A paralisação dos professores e os professores paralisados: um simples trocadilho ou um fato?





Desde o final de 2011 que ouvimos falar em uma mobilização nacional para forçar os Estados, os Municípios e o Distrito Federal a cumprirem a Lei n. 11.738 de 2008 (chamada Lei do Piso) que institui nos seus oito artigos o piso salarial nacional dos profissionais do magistério público da educação básica, a composição da jornada de trabalho, reservando o limite máximo de 2/3 da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos e 1/3 em Aula de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC) e Aula de Trabalho Pedagógico Livre (ATPL) e, também sobre o Plano de Carreira. Pois bem, desde 2008 que vem se travando a discussão sobre essa Lei, e pouquíssimos Sistemas de Ensino vem cumprindo-a integralmente. Alguns cumprem a parte do salário, outros cumprem com o Plano de Carreira. Não conhecemos nenhum que cumprissem com as horas de atividade com alunos. 

O que nos chamou a atenção foi a ausência desse debate desde que a Lei foi publicada em 2008. Nas escolas foram raras as oportunidades de discussão durante as Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC), agora denominadas ATPC. Nas redes sociais, também pouco se falou. Entretanto, há alguns meses esse debate ganhou espaço (nas redes sociais). Indiferentes a isso, continuamos sem debater esses assuntos nas escolas. O tempo foi passando e a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) convocou uma paralisação nacional para os dias 14, 15 e 16 de Março de 2012. Desde o início de 2012 que estamos acompanhando essa tentativa de mobilização. Independentemente do corrente ano eleitoral e dos interesses políticos e, sobretudo partidários que permeiam esse debate, gostaríamos de centrar nosso foco sobre a figura do professor e sua formação filosófica, ou política. 

Já faz algum tempo que as ciências humanas perderam sua função na educação básica (se é que alguma vez, realmente tiveram essa função) que é a de proporcionar ao aluno uma reflexão crítica e autônoma sobre os acontecimentos sociais. Com a expansão descontrolada e a monetarização desenfreada do ensino superior no Brasil as ciências humanas também perderam seus espaços (inclusive dentro dos próprios cursos de ciências humanas). É comum hoje verificar cursos de Pedagogia, Filosofia, História, Geografia, Letras, Sociologia, entre outros, uma formação a “toque de caixa”, sem que haja leituras essenciais para a formação deste profissional ou debates em torno das ideias centrais do seu ramo de atuação. Isso posto, é de se esperar que o futuro profissional não domine sua área de atuação e seja um trabalhador “meia boca”. Para deixar mais claro, é possível citar José Carlos Libâneo (Adeus Professor, Adeus Professora? Novas exigências educacionais e profissão docente. Ed. Cortez, 1998)  em que no terceiro capítulo o autor faz uma brilhante análise da desprofissionalização do docente, mediante o sistema neoliberal de ensino. Em que o professor é formado sem que haja condições deste partir para o mercado de trabalho plenamente qualificado e, sendo assim, também formará alunos sem qualificação. 

O que queremos discutir aqui é que os professores, diferentemente de outras categorias (tais como os metalúrgicos, os petroleiros, os mineradores, os caminhoneiros...) não sabem, ou não querem, brigar pelos seus direitos trabalhistas. Talvez a sensibilidade do professor diante do turbilhão de atividades e controvérsias que permeiam seu trabalho tenha diminuído seu interesse em formar cidadãos livres e conscientes do seu papel social. Entretanto, cabe outra citação. Desta vez, verificamos em Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido. Ed. Paz e Terra, 1987) é dito que é preciso ensinar ao oprimido que ele o é, e portanto, a partir da sua consciência de oprimido adquirida, o mesmo tenha condições de emancipar-se intelectualmente. Pois bem, fazse a questão: Como ensinar a um oprimido que ele o é, se o professor também o é e não sabe? 

Como criar uma sociedade emancipada e democrática se o professor, papel central neste processo, não é emancipado e muito menos democrático? Como formar um aluno crítico e consciente dos seus 
deveres e direitos se o professor também não tem consciência dos seus? 

As faculdades não proporcionam tal formação para seus alunos, por conta de um currículo enxuto, mensalidades baixas para atrair qualquer tipo de alunopagante, salas superlotadas (100 – 150 alunos, sem exagero), professores mal remunerados, e portanto, sobrecarregados de aulas e sem estímulo para continuarem sua formação (até porque se continuarem a formação se tornarão profissionais mais caros), falta de pesquisa e publicações acadêmicas, cortes de custos a qualquer preço, a quantidade e o lucro em detrimento da qualidade do ensino, são alguns dos fatores que contribuem para o círculo vicioso, má forma-
ção gerando má formação, ou seja, o professor mal formado no ensino básico, também é mal formado no ensino superior e vai contribuir com a má formação no ensino básico.  

Se formos analisar a situação sob esta ótica, veremos que os sindicatos e seus diretores, pessoas astutas e possuidores de uma oratória invejada, utilizam-se deste círculo vicioso na razão direta dos seus interesses políticos-partidários, pois sabendo que o professorado é mal formado politicamente e também não consciente da sua posição de formador de opinião, usam os mesmos como massa de manobra, assim como o governo, usa desse expediente para reforçar o círculo vicioso que resulta na má formação do aluno que por sua vez ao se formar numa faculdade também terá grandes chances de ser um mal profissional. 

Tal situação, a má formação do professor, foi no citada no “Jornal da Educação” em sua edição on-line nos idos de 2007 onde é dito que os mestres e doutores, responsáveis pela formação dos profissionais da educação, deveriam assumir parte na responsabilidade da má formação dos alunos da educação básica, pois eles tem participação nesse processo, haja visto que eles formam os professores. O mesmo jornal cita ainda a possibilidade, caso o governo fosse sério (adendo nosso), de que todos os professores poderiam ser chamados a fazer atualizações e especializações GRÁTIS (grifo nosso).  Impossível? Não nos parece. Afinal seria uma bela demonstração de seriedade. Alguns, menos avisados, poderiam aventar de que o governo já proporciona bolsa mestrado e doutorado para os professores da rede. Mas, isso é 
em número reduzido e insignificante para uma rede de aproximadamente 200 mil profissionais da educação. É necessário mais, muito mais. 

Segundo Cunha (CUNHA, M. I. Aprendizagens significativas na formação inicial de professores: um estudo no espaço dos Cursos de Licenciatura. Artigo on line, disponível em: h t t p : / / 1 6 8 . 9 6 . 2 0 0 . 1 7 / a r / l i b r o s /anped/0425T.PDF),  ”Não são os conteúdos ou as informações que carregam as relações sociais que geram a reprodução social ou cultural, mas a forma de transmissão, entendida como a teia de relações de poder e de subjetividade que a permeiam”. Daí deduz-se que o especialista recémformado, muitas vezes, não detém a capacidade necessária para a devida transmissão do conhecimento adquirido. Ele é de fato um especialista em sua área, porém em um mundo globalizado e contextualizado, como o de hoje, talvez fosse necessária uma formação acadêmica global. Seria o professor do tipo “canivete suíço”. Como um professor desse  naipe, provavelmente, custaria mais caro às universidades e faculdades elas acabam optando por aqueles que possuem o conteúdo, porém vazios de competência. Onde isso irá desembocar? Claro, evidentemente na má formação do aluno do Ensino Básico. 

Ainda referenciando Cunha, ”esse profissional mal preparado vai encontrar dificuldade para se encaixar no mercado. Vai, então, para a especialização na Pós-Graduação. Escolhe uma área específica, forma-se, e vai dar aula. Seu método será o mesmo utilizado pelo professor que ele teve durante a graduação. E a 
inovação? Sem ela, não há mudança.” De fato, como o professor ,durante a sua especialização, não inovou em nada, há de se entender que nada irá mudar e ele agora com diploma na mão irá ensinar exatamente aquilo que aprendeu e da forma que aprendeu. Faz-se necessária uma ruptura epistemológica que permita reconfigurar os conhecimentos para além das regularidades propostas pelo paradigma da modernidade.

 Percebemos então que, o balaio é muito maior do que imaginávamos inicialmente. Por fim, podemos concluir afirmando que há interesses por parte de alguns grupos sociais para que a formação inicial e continuada do professor seja de baixa qualidade. Há interesses políticos e econômicos evidentes para que a formação da educação básica seja de baixa qualidade. Esses interesses partem de diversos lugares, tanto do Governo, quando dos sindicatos e das empresas que precisam de mão-de-obra semi qualificada e barata.  

Para quebrar esse ciclo só existe um meio: Estudar. Amigo professor, é preciso estudar mais!

Omar de Camargo 
Técnico Químico
Professor em Química
Pós-Graduado em Química

Ivan Claudio Guedes 
Geógrafo e Pedagogo.


Texto disponível em http://www.gazetavaleparaibana.com/053.pdf
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