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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

DE ESCOLA REPRODUTORA A ESCOLA TRANSFORMADORA

DE ESCOLA REPRODUTORA A ESCOLA TRANSFORMADORA

Apenas deter o certificado de pedagogia não garante o conhecimento 





A criação da escola no Brasil está ligada estritamente ao desembarque dos jesuítas para “catequizar e domesticar” os índios. Em seguida, o sistema de ensino implantado tinha como objetivo atender aos anseios da nobreza instalada na colônia para que seus filhos fossem corretamente instruídos para voltarem ao velho continente e concluir o ensino superior. Desta forma, por muito tempo nossa escola pública também foi elitista e considerada como uma arma importante para adentrar no mundo universitário. Bom, de lá para cá muita coisa mudou e a universalização do ensino tão pregada pelos escolanovistas, está se tornando uma realidade, apesar dos tropeços e enganos cometidos, temos avançado nesse ideal de escola para todos.

Mas, porque não temos alcançado os louros da vitória tão desejados? O que estaria faltando para alçarmos voos mais altos em direção ao topo da lista das avaliações externas como, por exemplo, o PISA?  Avançamos timidamente e às vezes recuamos nos índices e quase que invariavelmente o debate recai sobre os professores. Será que a culpa é só e tão somente dos professores? Que escola nós temos, ou seja, que tipo de escola nós temos? Quais os objetivos dessa escola? Bem, a resposta, acreditamo-nos, é que a nossa escola calcada em valores elitistas e/ou tecnicistas não mudou em quase nada do que era, ou melhor, ela é ainda carrega a estrutura de uma escola tecnicista com ranços elitistas. 
O que é pedagogia nova

A estrutura curricular verticalizada baseada na escola reprodutora de conteúdos inadequadamente agrupados, sem transversalidade e sem interdisciplinaridade está mais presente e vivo do que durante os anos 1960 e 1970. As disciplinas são desligadas e desconexas da realidade, recheadas de conteúdos estanques, nada (ou muito pouco, para não generalizar) aplicáveis ao nosso mundo. Então qual a diferença entre a tradicional e a atual?

O século XXI iniciou-se com mudanças bruscas nos paradigmas sociais, estamos diante de uma nova realidade, novos interesses, novos objetivos. O lado negativo é que ainda estruturamos a escola com base em critérios da segunda metade do século XX (que é uma caricatura da estrutura europeia do século XIX). Temos uma escola “para todos” com valores elitistas. Agregado a isso se soma o Estado lento e burocrático que não sabe se assume uma postura neoliberal ou de bem-estar social. Um Estado que funciona no papel, mas que não se aplica à realidade, ou seja, temos um Estado de “faz de conta” que proporciona uma educação “faz de conta”.

 E porque chegamos a esse ponto? Primeiro por que não produzimos nenhum sistema educacional estritamente nacional voltado às nossas realidades. Segundo, a ingerência de partidos políticos na educação tem sido uma constante, haja vista que a cada eleição, as mudanças de secretários, de ministros e agregados políticos resulta em uma reformulação do que estava sendo feito, partindo do zero. Os debates sobre a educação têm sempre o mesmo discurso e a mesma receita. Na prática, o resultado é sempre o mesmo: A má qualidade da educação. 

Até agora ninguém, de qualquer partido político, teve a sensatez de dizer que educação deveria ser apartidária, traçada em longo prazo, mas com critérios objetivos e bem definidos, visto tratar-se de um bem maior do que as mesquinhas políticas partidárias. Em terceiro lugar, podemos dizer que gostamos de importar “modismos pedagógicos” e modelos do hemisfério norte. Dentre os modelos importados, só não importamos orientais até agora por que, a bem da verdade, veem mostrando bons resultados, mas requerem uma mudança de postura social e, principalmente, política (sobretudo no campo da ética).

Nessa imensa colcha de retalhos que é o nosso sistema educacional, podemos apontar os temas transversais que, na Espanha, tem apresentado bons resultados e poderiam ser melhores trabalhados por aqui. Porém, no Brasil, não passa de um empilhado de temas e ideias que quase não estão presentes em livros didáticos ou em estruturas curriculares elaborados pelos sistemas de ensino.

O trabalho interdisciplinar, na prática, fica a cargo do professor que se aventura em desenvolver projetos, diga-se de passagem, à parte do menu acadêmico. Coordenadores pedagógicos ficam torcendo para que apareça um grupo de professores dispostos a introduzir os temas transversais e ligar suas disciplinas num âmbito interdisciplinar e com isso dar sentido às suas aulas. As universidades, por sua vez, limitam-se ao conteúdo curricular ensinado às várias gerações. Não há mobilidade curricular. Professores são engessados dentro de uma “caverna”. Esses profissionais são jogados no mercado profissional e levam consigo a sua “caverna”. Repassam aos seus alunos as mesmas sombras que um dia aprenderam a acreditar. 

Kant em sua pedagogia de valores morais, assim como outros, como, por exemplo, Paulo Freire e Rubem Alves, nos convidam a olhar com outros olhos, a termos um olhar quase metafísico em que o ser é muito mais importante. O ser humano está em constante evolução e, portanto o ensino deveria acompanhar essa evolução. O que se vê nas escolas é a transmissão de ideias arcaicas a respeito das ciências. Uma ciência imutável? As teorias científicas se sucedem ao longo do tempo e, em tom jocoso podemos dizer que nada é absoluto e tudo é relativo, e essas mudanças profundas ou não, e que podem ser de natureza epistemológicas, refletem diretamente na educação.

Diante desses fatos porque não se fazer uma integração de saberes? O ensino das disciplinas curriculares está enclausurado em gaiolas como pássaros que já não alçam voo. Precisamos de uma força transformadora que faça com que o dia a dia esteja presente no ensino dessas matérias curriculares. Evidentemente, não podemos relegar a desprezo o ensino tradicional, não se trata de abandonar um e acolher o outro, mas de integração, união. 

Nada melhor para transformar do que miscigenação dos conhecimentos, dos saberes. Os temas transversais e a interdisciplinaridade tem o papel importante de ser o agente aglutinante que irá dar vida nova ao conteúdo curricular bem como despertar no aluno a necessidade de se tornar um ser humano melhor. Um ensino integrado pode despertar no horizonte, mas é preciso ter cautela, pois uma simples canetada juntando disciplinas e mudando a estrutura curricular de uma hora para outra (como já desponta o MEC), pode piorar o que já está ruim. 

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química
omacam@gmail.com

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo
Consultor e assessor pedagógico
ivanclaudioguedes@gmail.com

CAMARGO, O.; GUEDES, I.C. De escola reprodutora a escola transformadora. Gazeta Valeparaibana [online], São José dos Campos, 01 ago. 2014. E Agora José? - Opinião. Disponível em http://www.gazetavaleparaibana.com/081.pdf  Acesso em 02 ago. 2014.


APRENDA O QUE SE ESPERA DA EDUCAÇÃO DO SÉCULO XXI

APRENDA O QUE SE ESPERA DA EDUCAÇÃO DO SÉCULO XXI

Relatório da UNESCO traz as principais orientações para a educação mundial








A série de nove programas sobre o Relatório da Comissão Internacional de Educação para a UNESCO, denominado EDUCAÇÃO: Um tesouro a descobrir, traz a reflexão crítica sobre as orientações gerais da UNESCO para a educação no século XXI. Ainda que estejamos na metade da segunda década deste século, muito ainda temos por fazer para que alcancemos uma educação de qualidade. Alias, fica a pergunta: o que é qualidade na educação?

Os programas apresentam os preceitos que a UNESCO tem para com a educação mundial, sempre lembrando que cada pais tem sua singularidade 
Educação um tesouro a descobrir

A princípio, é importante lembrar que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a educação a ciência e a cultura) é um órgão da ONU (Organização das Nações Unidas), fundada em 1945 com o objetivo de manter a paz mundial e promover o desenvolvimento econômico dos países. Dentro desta concepção todos os órgãos, ou departamentos, da ONU devem contribui para que tal meta seja alcançável.

Os sistemas de ensino, por sua vez, sejam federais, estaduais ou municipais devem contemplar tais orientações para que possam alcançar as metas estabelecidas para o desenvolvimento da educação e pleitear os financiamentos de programas educacionais e de desenvolvimento.


Por fim, essa série traz os principais aspectos contidos no documento original de Delors. Esperamos que seja de grande valia para os estudos dos professores e demais interessados no tema, e que possa contribuir com a sua criticidade.

PROGRAMA 1: DA COMUNIDADE DE BASE À SOCIEDADE MUNDIAL




PROGRAMA 2: DA COESÃO SOCIAL À PARTICIPAÇÃO DEMOCRÁTICA


PROGRAMA 3: DO CRESCIMENTO ECONÔMICO AO DESENVOLVIMENTO HUMANO


PROGRAMA 4: OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO




PROGRAMA 5: A EDUCAÇÃO AO LONGO DE TODA A VIDA



PROGRAMA 6: DA EDUCAÇÃO BÁSICA À UNIVERSIDADE



PROGRAMA 7: OS PROFESSORES EM BUSCA DE NOVAS PERSPECTIVAS


PROGRAMA 8: OPÇÕES EDUCATIVAS: O PAPEL DO POLÍTICO

PROGRAMA 9: COOPERAÇÃO INTERNACIONAL: EDUCAR A ALDEIA GLOBAL

domingo, 20 de julho de 2014

PARA QUÊ SERVE A ESCOLA?

PARA QUÊ SERVE A ESCOLA?

A função da escola é discutida por muitos, mas compreendida por poucos.



A princípio a resposta à pergunta acima é fácil de responder. Alguns dirão que é para preparar para a vida. Outros dirão que é para ensinar conteúdos. Outros dirão que é para educar. Muitas respostas prontas vêm à cabeça e todas elas parecem convergir. A própria legislação caminha nesse sentido, uma vez que a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 dizem que a função da escola é preparar para o “pleno exercício da cidadania e para a qualificação para o mercado de trabalho”. Entretanto, de qual tipo de cidadania estamos falando? O que é cidadania? Qual tipo de mercado de trabalho?






            Preparar um aluno para a cidadania é complexo e contraditório se nos perguntarmos “o que é cidadania?”. Uma cidadania limitada ao voto bianual? Uma cidadania em que não se pode questionar nossos representantes porque, mais cedo ou mais tarde, acabará preso? Uma cidadania forjada na “representatividade” do voto em que escolhemos entre os escolhidos pelos seus pares? Uma democracia baseada em um agrupamento de leis que não servem para o povo? Uma democracia contaminada pelo preconceito étnico, econômico, de gênero e intelectual? Que tipo de democracia estamos falando?

Uma escola unida por todos os povos


            E o que é mercado de trabalho? Aquele em que “todos têm oportunidades”? Oportunidades para quê? Para trabalhar em uma loja ou para ser banqueiro? Para lavar carros ou para ser dono de montadora de veículos?

            Para aqueles que trabalham com a escolarização existem normas, regras, currículos, programas e projetos. Entretanto, o professor cai em um constante senso comum ao não se perguntar qual é o real objetivo do seu trabalho. Todo currículo traz uma ideologia, toda disciplina é repleta de ideologia, independentemente de qual tipo de ideologia estamos abordando, todo documento tem. Aquele que recebe e trabalha com esses documentos também carrega seu conjunto de valores morais e éticos, também carrega sua ideologia, suas angústias e suas intenções. Seus preconceitos e suas ideias.

            Na ponta deste processo há o aluno.  O aluno, assim como o professor, também carrega seu conjunto de valores, também possui suas aspirações, seus preconceitos, suas ideias e seus valores. Ao entrar em contato com a escola, tudo aquilo que ele acredita é colocado em prova. O currículo o coloca em uma forma para que ele saia “formado”, dentro dos padrões estabelecidos, ou seja, dentro do “script social” (como diz P. Ghiraldelli Jr.).

            Mas, voltando ao assunto, para quê serve a escola? Que tipo de sociedade querem que se forme? Florestam Fernandes afirma que “feito a revolução nas escolas, o povo a fará nas ruas”. Frase difícil de compreender, uma vez que todos que estão dentro da escola fazem parte do “povo”. O conflito de interesses dentro do ambiente escolar é tão grande que é quase impossível mensurá-lo, e não dá para fazê-lo por decreto, pois existe o fator “humano”, que pensa, que atua e que questiona o que está escrito. Mesmo aquele mais bem intencionado quando elabora uma política pública, um currículo ou uma legislação não consegue sanar todas as angústias da sociedade, sendo assim, sempre haverá essa discussão sobre a função da escola.


            Cada núcleo da sociedade tem uma aspiração: os humanistas querem uma escola voltada à cidadania, os empresários querem melhores funcionários, os marxistas querem a revolução, os cientistas querem mais ciência na escola, alguns querem o controle social, outros querem a liberdade social. Falta um modelo, falta um norte, ou seja, antes de se pensar em um modelo de escola, falta ser construída uma sociedade. 

Ivan Claudio Guedes, 34. Geógrafo e Pedagogo.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

É LIVRE A MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO, DESDE QUE PENSE IGUAL A MIM!

É LIVRE A MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO, DESDE QUE PENSE IGUAL A MIM!

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade


Antes de qualquer reflexão, leia o Artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.








Há algum tempo temos percebido que a intolerância às ideias, às manifestações intelectuais, artísticas e de comunicação tem sido muito constante nas redes sociais. Por muito pouco se condena qualquer pessoa por qualquer pensamento que seja destoante de um pensamento majoritário em um determinado grupo. Em um debate em qualquer lugar, rapidamente se esquecem dos argumentos e partem para a agressão pessoal. Talvez por causa da baixa escolarização e, consequentemente da baixa bagagem intelectual, falte argumentos para travar uma discussão em torno das ideias e se lançam à briga de cães.

A intolerância está presente em todos os grupos sociais. Na família, na escola, nas igrejas, nas empresas, nos sindicatos, nas agremiações, nos partidos políticos, etc. Considerando que o indivíduo ao longo da sua vida tem contato com as mais diversas opiniões e fundamentações, porque mesmo assim a intolerância está muito mais presente do que a tolerância à diversidade cultural e das ideias?

Ser intolerante já foi regra social. Até o século XVI ser intolerante era uma virtude. Aquele que era intolerante tinha integridade moral ou firmeza diante dos preceitos morais da época. A tolerância, por sua vez, era vista como uma atitude de impunidade frente ao mal, ou seja, a aceitação de um erro. O cidadão tolerante poderia ser acusado de indiferença religiosa ou de subversão.

Diante de tal sociedade, era comum, portanto, a supressão de toda forma de convicções que fossem diferentes da ideia predominante. Encontra-se na literatura que o ápice dessa intolerância à tolerância foi o episódio da “Noite de São Bartolomeu”, ocorrida em 1572, na França. Na época, o massacre pelo poder real, católico, aos protestantes franceses, gerou milhares de mortes que se iniciou na madruga de 24 de agosto e duraram diversos dias, espalhando-se para outras cidades.

Tal episódio trouxe aos filósofos a tarefa de analisar melhor a tolerância. Um deles foi John Locke (1632-1704) que escreveu a Carta sobre a Tolerância (1689). Neste caso, a tolerância deveria ser a partir das diferenças religiosas e políticas, defendendo o direito dos indivíduos.

Do iluminismo para cá, diversos filósofos, sociólogos e psicólogos passam a escrever em favor da multiplicidade de crenças, valores e opiniões. A literatura decorre em favor dos direitos dos indivíduos e não foi a toa que a Constituição de 1988 trouxe tantas liberdades ao cidadão.

Porém, voltamos ao problema principal: mesmo diante de diversas legislações e teorias sobre a liberdade do indivíduo, muitas vezes nos colocamos como “donos da razão” e suprimimos o direito do outro. Quando um assunto polêmico ganha visibilidade, tais como a Lei da Palmada, a legalização da maconha, a legalização do aborto, a reforma política, entre outros assuntos, o “espírito medieval” toma conta do debate.

O movimento de “caça às bruxas” está tão presente quanto na idade média. É alarmante a quantidade de comentários e artigos de blogues expondo as mazelas alheias. Não bastasse isso ainda temos aqueles pretensos donos do mundo que se acham no direito de intimidar a quem quer que se oponha à sua ideologia.

Dois casos nos saltam aos olhos neste momento: o primeiro é sobre o humorista Gustavo Mendes, que faz uma caricatura da presidente Dilma. Em um evento na cidade de Búzios-RJ, em 15 de junho, o ator fez uma brincadeira com o Pe. Ricardo, e satirizou a presidente. Durante o show foi retirado do palco e agredido pelo assessor do prefeito. No vídeo divulgado na internet o agressor se justifica em nome da igreja e dos bons costumes. O outro caso é do Sr. Alberto Cantalice, vice-presidente do PT e coordenador de redes sociais que criou uma “lista negra” citando pessoas como Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli, Danilo Gentili e Marcelo Madureira, incitando o ódio sobre eles, uma vez que são contra este partido.

Considerados como profetas do caos, pelo petista, esses jornalistas são estigmatizados como sendo contra as cotas sociais e raciais, contra a presença do negro em concursos públicos e etc.

Independentemente de concordarmos, ou não, com o que expressam Gustavo Mendes, Rachel Sheherazade, Paulo Ghiraldelli Jr., Pastor Caio Fábio, Pe. Ricardo, além dos outros já citados, o que interessa é a liberdade de expressão que deve ser mantida. Não concordar e argumentar contra é uma coisa, pedir a cabeça do sujeito é covardia, próprio de quem não tem argumentos.

Esse fundamentalismo partidário rasgado e sem bom senso nos leva a crer que estamos diante de um momento perigoso e que poderemos vir a sofrer um duro golpe na nossa frágil democracia. Não se trata de apenas retórica, palavras ditas no calor de uma discussão e sim de um pensamento ideológico insano. Atear lenha onde há brasa e quando queimar se fazer de vítima nos parece um procedimento comum dentre aqueles que querem jogar com o sentimento do ingênuo brasileiro, sempre dispostos a se posicionar do lado que “aparentemente” está mais fraco ou oprimido.

Por fim, vale lembrar, neste caso principalmente aos professores, que as diversas orientações didáticas na literatura (ex. FREIRE, DELORS, MORIN, SAVIANI, LUCKESI, ZABALA, dentre muitos outros), contribuem para um ensino democrático e tolerante. Para a diversidade de ideias e pela livre manifestação do pensamento, ou seja, é na escola que devemos começar a ensinar a tolerância como um conteúdo atitudinal e ser apreendido pela sociedade. Entretanto, é preciso salientar que primeiro nós professores devemos aprender tal conteúdo, uma vez que também carregamos conosco nossas convicções, ideias, pensamentos e valores, e corremos o risco de nos impor tão intolerantes quanto aqueles que citamos.

Até quando vamos sofrer com essas ideologias partidárias ou religiosas? Quando iremos crescer e realmente pensar grande, pensar na liberdade de opinião e de expressão? Quando será que veremos saciada a ganância pelo poder por aqueles que deveriam proteger e que na verdade se tornam algozes do povo?

Como diz uma célebre frase de Voltaire “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante teu direito de dizê-la”.

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo
Consultor e assessor pedagógico
icguedes@ig.com.br

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química
omacam@gmail.com


CAMARGO, O.; GUEDES, I.C. É livre a manifestação do pensamento, desde que pense igual a mim. Gazeta Valeparaibana. São José dos Campos, julho. 2014, p. 9. Disponível em: http://www.gazetavaleparaibana.com/080.pdf. Acesso em: 01 jul. 2014.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

EM BUSCA DA AULA PERDIDA

          EM BUSCA DA AULA PERDIDA

Buscar novos métodos e se atualizar sempre é obrigação primordial do professor



      Numa alusão ao filme “Em busca do tesouro perdido”, em que Nicolas Cage personifica  Benjamin, um caçador de tesouros, que durante toda sua vida procurou um tesouro que ninguém acreditava existir, resolvemos escrever esse artigo. Acreditamos que todos os professores, ao menos aqueles interessados, estão sempre à procura da aula perdida, ou aula perfeita como se fosse um tesouro que ninguém mais acredita existir, somente ele. Quem não se perguntou: O que está faltando? Onde posso melhorar? Será culpa do aluno ou eu não estou me fazendo entender?





                Uma coisa é certa, os tempos e as pessoas mudaram, e como mudaram. Uma aula regada à lousa e giz não atrai mais ninguém e se o professor parar para pensar verá que nem a ele agrada esse tipo de aula. Hoje em dia temos uma dinâmica muito maior, a interação com as coisas, pessoas, informações, etc. tudo está a um clique do mouse.

                Muitos professores se vêm perdidos diante de tanta informação rolando na tela de um IPhone ou Tablet nas mãos ágeis dos alunos. Então o que fazer?

                Muito se tem falado em despertar o interesse do aluno. Aliás, quem nunca ouviu a fala: - “Professor sua aula não é interessante, faça alguma coisa”. E aí você vai para casa e fica matutando no que fazer, remoendo seus pensamentos e se sentindo inferiorizado. Calma amigo professor, você não é o único a se preocupar com isso. A aula perfeita assim como um tesouro repousa perdida em algum lugar na nossa mente. É necessário buscá-la em nós mesmos, revolver nossos preconceitos, garimpar nossa didática, esmiuçar nossas metodologias e, quiçá buscar ajuda externa. Há um mundo novo a ser explorado, novas metodologias, novas possibilidades e o professor não pode ficar parado no tempo senão ele fica ultrapassado, velho antes do tempo. Depois da invenção do computador tudo ficou mais rápido, rápido até demais e nós professores ficamos focados nos ensinamentos que remontam ao século passado. Não queremos dizer que o que se aprendeu é descartável, pois não é. Numa comparação grosseira o que aprendemos é como um carro antigo, bem conservado que nos leva aonde queiramos ir, porém nada se compara com um carro atual, com ar condicionado, GPS, freios ABS e direção hidráulica. Bem, apenas citando alguns itens de conforto para a lista não ficar comprida. Percebe a diferença?

                Vivemos um momento de paradigmas sociais e filosóficos, que trazem no seu bojo certas tendências pedagógicas. O professor deve estar atento para as interações didático-pedagógicas que isto propicia e desta forma ir construindo sua prática educativa.

                O professor precisa se atualizar. Isto é indispensável para sua sobrevivência como professor. Aliás, como todo profissional, o professor precisa estar atualizado. É preciso estudar e conhecer diferentes opiniões, diferentes concepções pedagógicas e diferentes ideologias sobre a função do ensino. Fazendo uma alusão a outros profissionais, o advogado é obrigado a se atualizar diariamente, o engenheiro idem, o médico ibidem, e o professor? Porque lança o livro didático de baixo do braço e faz dele uma “bíblia”?

                Os diferentes níveis de ensino (Infantil, Fundamental I e II, Médio e Superior) requerem um conjunto de competências e habilidades de cada profissional que seja condizente com o a etapa em que esteja trabalhando. Um professor que atue em diferentes modalidades deve saber separar as necessidades de cada etapa e os embasamentos teóricos e metodológicos que permeiam orientações didáticas.

                Neste contexto figuram-se faculdades que não estão muito preocupadas em formar professores para diferentes segmentos de ensino. A formação do professor se faz, muitas vezes, nos cursos de pedagogia (para os atuantes na educação infantil e no ensino fundamental I). Estes pedagogos carregam em seus cursos uma carga razoável de teorias pedagógicas e estratégicas de ensino, mas o que dizer dos professores especialistas? Os cursos de formação de professores especialistas dão conta da sua carga específica e pedagógica? Porcamente há que se dizer,  os cursos de licenciaturas trabalham com Psicologia da Educação, Didática e Estrutura da Educação Básica, ou seja, três disciplinas que irão “atestar” ao aluno de ensino superior a competência de lecionar no ensino fundamental II e médio (e que muitas vezes são ministradas por “professores” que não possuem formação pedagógica).

                Apropriar-se de teorias e tendências pedagógicas certamente irá trazer inúmeras ferramentas para a solução dos acidentes de percurso durante sua vida como docente. Não estar preso a uma teoria apenas é uma maneira de manter a mente aberta e disposta à mudanças.

Muito se tem falado da formação do docente, ou melhor, da formação “ideal” do docente, porém tal discussão não tem passado de um embate teórico que nunca se transformou em realidade. A nossa diversidade cultural e econômica social é enorme e sugerir apenas um caminho é, no mínimo, inconsequente. Neste sentido temos as orientações curriculares que traçam apenas indicações de caminhos a serem trilhados e, convenhamos, é o máximo que se pode exigir de algo tão amplo.

Considerar que tudo possa ser resumido a aplicação de um saber metodológico, fundamentado epistemologicamente em outros campos de saberes é algo duvidoso, pois são tantos os meandros a serem percorridos na busca da aula perfeita (ou perdida) que apresentar uma fórmula seria como prender o professor a um método, assim como pretendia Comênio e a exemplo de Bacon que considerava possível resumir o ensinar/aprender a um método.

Com tantas inovações pululando em nossa volta, a escola de hoje é uma escola diferente daquela de ontem. Não chega ser um retrocesso, porém diríamos que é uma escola nova, cheia de novas possibilidades. Isto possibilita aos professores determinar novos rumos, investigar novas teorias, quiçá a sua própria teoria. É preciso nunca deixar de procurar pela aula perdida, numa constante transformação, num eterno aprender ensinando.

OMAR DE CAMARGO
Técnico Químico
Professor em Química
decamargo.omar@gmail.com

IVAN CLAUDIO GUEDES
Geógrafo e Pedagogo
Articulista e Palestrante
Especialista em Gestão Ambiental, mestre em Geociências e doutor em Geologia.


icguedes@ig.com.br

Publicado originalmente em: http://www.gazetavaleparaibana.com/077.pdf 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para onde caminha a humanidade? (II)

 Para onde caminha a humanidade? (II)

Não adianta chorar pelo leite derramado. Ou seja, se não educar seu filho desde cedo, não vai adiantar querer começar aos quinze anos de idade, quando talvez já for tarde de mais.





  
Uma célebre frase de Molière diz que “Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer”. Muito se tem falado no que se tem feito para diminuir a violência. Mas o que deixamos de fazer? E é nesse ponto que entramos com aquilo que dissemos da terceirização das responsabilidades.

A violência ganha um sentido mais amplo se nos responsabilizarmos por aquilo que deixamos de fazer. Percebam que, quando deixamos de verificar uma lição de casa, ou quando permitimos que uma criança se exceda em sua birra, ou damos à criança muito além daquilo que seria necessário, no intuito de aplacar nossa consciência pela ausência provocada por nós mesmos e pela desculpa de não ter tempo em função do trabalho ou algo assim, estamos afastando essa criança do convívio e com o tempo passando ela irá tomar isso como desinteresse dos pais por ela, daí à violência é um passo, pois o que ela quer é atenção, ser repreendida, coisa que nunca foi.

A violência abrange todos os níveis sociais, e a violência escolar é apenas uma das facetas da violência que vemos emergir por aí, ela não tem preferência por cor, raça, religião ou condição social. Na organização da nossa sociedade atual ela adquire um papel primordial devido às interações de uma série de fatores políticos, socioeconômicos e também culturais tanto de grupos sociais como de áreas determinadas. Porém cabe destacar um grupo especialmente vulnerável que são as crianças e adolescentes. Considerando a escola como um espaço de socialização do indivíduo, é óbvio que os conflitos irão aparecer.

            Vamos nos arriscar a dizer que a violência pode ser fruto da falta de educação. Ora, se a terceirização da educação é uma realidade moderna porque não também dizer que a banalização da violência escolar também é.

            O que gera muitas vezes na escola a violência (verbal, física ou intelectual) é a falta de educação. A sociedade moderna é uma sociedade de privilégios, e não de direitos (e muito menos de deveres). Todo mundo está certo e todo mundo tem razão. Chegamos a pensar que está faltando normas claras de convivência em sociedade.

            Ao longo dos tempos quem ditava tais normas era a Igreja. Em outros tempos as normas foram ditadas pelos governos. Consequentemente a família ditava as normas aos seus filhos e aos filhos dos filhos. Com a quebra do poder da igreja e com a abertura para a democracia o Brasil deixou de ter normas claras de convivência. Os valores de uma época se perderam e não existe mais o porque de se cumprir com determinadas tarefas, ou de respeitar determinadas pessoas (como se umas merecessem mais respeito do que outras).

            Na política a corrupção se banalizou e virou algo aceitável. A legislação trouxe demasiados privilégios para o mundo do crime. O poder público tirou a responsabilidade dos pais sobre a educação do seu filho (inclusive proibindo a palmada pedagógica). A Constituição de 1988 é bem clara quando diz no artigo 205 que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Ora, é neste momento que a “educação”. Ou seja, a educação é colocada, antes pelo Estado do que pela família (esta em segundo lugar).

            No que diz respeito a educação que a família deve colocar aos seus filhos, os limites e os valores que desejam inserir é preciso repetir a célebre frase “quem pariu Mateus que o crie”. Sendo assim, vale algumas dicas:

1. Professor não é pai. Professor deve ensinar competências e habilidades conforme um plano de ensino.
2. Babá não é mãe, babá deve ser um complemento às necessidades da família.
3. Aluno é aluno durante um ano, ou um período. Filho é filho para sempre.
4. Dizer não ao seu filho não vai traumatizá-lo. Vai ensinar que ele não pode ter tudo e que não é a pessoa mais importante do mundo.
5. Escola não é reformatório. Escola é um espaço de interação social para que se aprendam os conteúdos mínimos para viver em sociedade.
6. Pai e mãe devem ser os responsáveis pelos atos dos seus filhos.
7. Proteger seu filho quando estiver errado hoje pode significar assumir a culpa por um assassinato amanhã (ainda que [não] seja só um acidente beber e dirigir).
8. Não espere que seus filhos não sigam seus exemplos. Nenhuma criança aprende a falar mal, brigar, ser nervoso, cuidar da vida alheia, fazer picuinhas, distribuir fofocas e ser mal educado sozinho.
9. Não acredite que a sociedade ou “a vida” vai educar o seu filho. Muito pelo contrário, o que podem fazer é ensinar, e geralmente, aquilo que não presta.


10. Não adianta chorar pelo leite derramado. Ou seja, se não educar seu filho desde cedo, não vai adiantar querer começar aos quinze anos de idade, quando talvez já for tarde de mais.


Omar de Camargo 
Técnico Químico 
Professor em Química. 
Pós-Graduado em Química. 
decamargo.omar@gmail.com 

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo.
Articulista e palestrante.
Especialista em Gestão Ambiental, mestre em Geociências. Doutorando em Geologia Regional.
icguedes@ig.com.br

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE?

PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE?

A falta de educação e a banalização da violência são quase sinônimos, na sociedade atual





Depois de algum tempo escrevendo no Jornal Gazeta Valeparaibana sobre a educação formal, nós do “Programa E agora José?” nos vimos, de certa forma, obrigados a mudar o foco da nossa atenção para a educação informal. Necessariamente o que estamos vivenciando é uma generalizada falta de educação
(informal).

Violência


Temos visto ultimamente acontecimentos que nos saltam à vista e nos chamam a atenção. Acontecimentos violentos, de pais contra filhos, de filhos contra pais, de estudantes contra estudantes, de estudantes contra professores, de professores contra estudantes... Não dá para negar que alguma coisa vem acontecendo com a sociedade e por mais que se tente entender, o fato é que está difícil encontrar a resposta.

Temos tentado encontrar a razão para a violência generalizada e banalizada. Buscamos resgatar na linha do tempo de nossas vidas e nos acontecimentos recentes respostas que nos satisfaçam e nos ajudem a compreender essa faceta do ser humano.

Algumas pessoas poderão afirmar que a violência sempre acompanhou a sociedade. Desde que o mundo é mundo que a sociedade é violenta e que estamos sendo moralistas. Outras pessoas poderão dizer que é “sinal dos tempos, coisa do demo, apocalipse ou que está escrito na Bíblia”.

Na realidade nós acreditamos que, atualmente, a generalização da falta de educação e da violência gratuita, pode ser compreendida a partir da terceirização de responsabilidades. Deixamos de lado nossas responsabilidades sociais e não nos assumimos enquanto pais, professores, alunos, policiais, etc. Se estamos vendo uma onda crescente de violência é porque não estamos assumindo nossas responsabilidades e estamos deixando para outros assumirem o que nós não fazemos.

Uma vez que a sociedade se mostra violenta e compreendendo que a escola faz parte da sociedade, logo isto estará bem reproduzido no ambiente escolar. Nas escolas pululam casos onde a falta de responsabilidade dos pais é gritante, também é gritante os casos de violência gratuita. Vídeos de brigas nas escolas são diariamente inseridos no youtube como uma diversão. A impressão que se dá é a de que não saímos dos tempos romanos com gladiadores, pão e circo. Mas, pensando em tempos atuais, o que está havendo com a sociedade?

Uma das hipóteses para a perda do pátrio poder dos pais sobre seus filhos é a de que, após a segunda metade do século XX com a inserção da mulher no mercado de trabalho e consequente divisão de responsabilidades no seio familiar, teria provocado uma quebra na responsabilidade para educação das crianças. A mulher deixou de ser a dona de casa para ser a dona da casa, fazendo muitas vezes o
papel de pai e mãe ao mesmo tempo, pois a figura do pai em certas famílias acabou deixando de existir. Isso trouxe uma ruptura da estrutura familiar que se conhecia e que já estava estabelecida até de certa forma, como sólida (pelo menos nas famílias mais tradicionais).

Nessa estrutura antiga a mulher desempenhava um papel de educadora dos filhos, era ela quem mantinha a ordem familiar e ditava, em seu âmbito, as regras morais. O pai, por sua vez, era o mantenedor, aquele que provinha o sustento através do seu trabalho. Com o desenvolvimento da estrutura social moderna, o
filho foi sendo deixado de lado, aos cuidados dos avós, ou de uma creche, ou até mesmo ficam sozinhos com os mais novos sendo cuidados pelos mais velhos. A responsabilidade pela educação das crianças foi terceirizada. Não se tem mais tempo para os filhos e para aplacar a consciência os pais exageram na permissividade (na doce ilusão de não serem pais, mas amigos dos filhos).

Esse assunto extenso, polêmico e controverso precisa ser retomado. Precisa ser melhor analisado. Por isso no próximo mês, vamos tentar contribuir com mais discussões sobre este assunto.


Este artigo continua em: PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE II
http://portaldaeducacaoreflexiva.blogspot.com.br/2013/11/para-onde-caminha-humanidade-ii.html

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
Pós-Graduado em Química.
decamargo.omar@gmail.com

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão
Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando
em Geologia.
Articulista e palestrante.
icguedes@ig.com.br

Para referenciar este artigo:

CAMARGO; O.; GUEDES, I.C. Para onde caminha a humanidade? Gazeta Valeparaibana. Ed. 71. Ano IV. Disponível em: <http://www.gazetavaleparaibana.com/071.pdf>, 2013, p. 09.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A HIPOCRISIA DO POLITICAMENTE CORRETO.

A HIPOCRISIA DO POLITICAMENTE CORRETO.

Censurar desenhos animados é o mais correto para garantir a educação da sociedade?


A Warner anunciou há alguns dias a censura de alguns episódios do desenho Tom & Jerry, criado pela dupla William Hanna e Joseph Barbera e exibido desde 1940, por conter algumas cenas violentas ou racistas. Pois bem, agora sobrou até para os desenhos animados.

Tive uma infância saudável. Brincava na rua, tinha minha coleção do He-Man, jogava bola, empinava pipa, assistia aos desenhos dos Flintstones, Pica Pau, Zé Comeia, Urso do Cabelo duro, A corrida maluca e a claro Tom & Jerry, e nem por isso fui “corrompido” pelas cenas violentas, nem tão pouco me tornei homofóbico, xenófilo, preconceituoso, violento ou o quer mais que seja. Talvez porque eu tenha sido muito mais influenciado pela minha mãe e meu pai do que pelos desenhos animados.

Censura

Hoje a história do politicamente correto só serve para dar coro à sociedade hipócrita que vê valores morais em absolutamente tudo na rua. Já não se pode dizer “chame o meu amigo, o neguinho ali”, eu tenho que dizer “chame o meu amigo, o afrodescendente de pele morena nascido no Brasil” (até porque devo considerar que, antropologicamente, todos somos afrodescendentes. Não somos iguais, mas temos a mesma raiz); ou então se eu for ofender alguém durante uma briga e chamá-lo de “viado” eu também já não posso, devo dizer “o seu mamífero da ordem dos artiodáctilos pertencentes à família Cervidae” ou então “o sujeito masculino com distúrbio de personalidade que tem traços femininos”, ou ainda “o cidadão endemoniado que precisa de tratamento para curar sua homoafetividade e que precisa pagar o restante do dizimo na igreja...”,ou simplesmente “o Homoafetivo”. Chamar crente de “crente” então...

O que eu quero dizer é que hoje nós vivemos em uma bolha muito tênue que explode a qualquer momento. A terceirização da responsabilidade de educar as crianças foi delegada à sociedade que por sua vez, não faz ideia de como educar. Sendo assim, espalham a hipocrisia do discurso do “politicamente correto” para censurar qualquer coisa que vá contra algum preceito religioso, moral, ético ou seja lá o que.

O que a nossa sociedade precisa aprender (e isso meus pais me ensinaram muito bem), é que se algo não o agrada na televisão ou em qualquer lugar, você não é obrigado a assistir ou a ir. Simplesmente não assista ou não vá! Também aprendi com os meus pais que, o que se passa na televisão não é a realidade. Os filmes, desenhos e novelas (e alguns jornais) são histórias para entreter, e que se eu fizer o que o Superman faz, vou morrer de verdade!


Enquanto continuamos discutindo censuras a desenhos animados e terminologias “politicamente corretas”, a canalhice, a pouca vergonha e a falta de vergonha na cara continuam reinando no Congresso Nacional, na Câmara dos deputados, nas assembleias legislativas, nas câmaras de vereadores e o meu, o seu, o nosso suor do trabalho continua indo para o esgoto. Continua caminhando desfiladeiro abaixo para os bolsos daqueles que ficam dias a fio discutindo nas suas salas com ar condicionado e secretárias gostosas, quais serão os próximos superfaturamento que vão criar.

Prof. Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A INDEPENDÊNCIA DOS DEPENDENTES

Eu não sei até que ponto devemos comemorar algo que não somos.

Reza a lenda de que D. Pedro I proclamou a independência às margens do rio Ipiranga no dia 7 de Setembro de 1822. Lenda a parte, é preciso determinar qual é o tipo de independência de que estamos falando.

Será que realmente somos um povo independente?


O que dizer da dependência psíquica que estamos submetidos via mídia que faz a clássica lavagem cerebral a favor do comércio e dos grupos políticos que estão no poder.

O que dizer da dependência cultural que temos em que somos obrigados a absorver a cultura de massa suprimindo a cultura local.

O que dizer da dependência religiosa que cerceia a liberdade de pensamento e expressão em favor dos “bons costumes” e da moral religiosa.

Na realidade ser independente é difícil. Para ser independente não podemos ser dependente, ou seja, temos que andar sozinho. Temos que nos responsabilizar pelo que falamos e pelo que pensamos e é ai que mora o perigo.

Na realidade temos medo de ser independente. Tanto medo quanto um bebê que está aprendendo andar. Entretanto, diferentemente do bebê, temos medo de andar sozinhos, de pensar, de falar e de agir.

Quanto é difícil discutir uma ideia ou um assunto se o nosso ouvinte ou leitor não compartilha da mesma ideia? Muita gente não esta preparada para ouvir uma critica ou uma opinião diferente. Muita gente não esta preparada para se dispor diante de um grupo e apresentar uma critica ou uma opinião diferente. Ter independência intelectual e moral é difícil, e quando se tem, dá se a impressão de que você é um extraterrestre, um louco.

A independência intelectual deveria ser o primeiro tipo de independência que um povo deveria bradar. Mas como gritar por uma independência se não se tem a consciência de que é dependente?

Talvez ai esteja um dos grandes motivos para a educação não dar certo. Intelectualizar um povo significa dar liberdade. Liberdade de pensamento, de opinião, de leitura, de expressão. Liberdade de dizer o que quiser para quem quiser e quando quiser. Liberdade de ter suas convicções e de poder expressar sem medo de ser repreendido ou de ser queimado na fogueira.

Povo que se mantém na jaula é povo fácil de controlar. Povo que se mantém no escuro é fácil guiar. Povo escolarizado que não sabe ler é fácil de manipular.


Ainda estamos engatinhando para a independência do Brasil. 191 anos se passaram desde a lenda. Precisamos de alguns tantos outros. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

SÍNDROME DA AMNÉSIA PEDAGÓGICA

SÍNDROME DA AMNÉSIA PEDAGÓGICA


Você já reparou quantas visões diferentes há sobre uma mesma escola? Já parou para analisar a opinião dos seus colegas sobre seu próprio trabalho? Já trocou ideias com outros trabalhadores da educação para ver quantas opiniões diversas há sobre o trabalho docente? Há algum tempo temos percebido as diferentes visões que pairam sobre o sistema educacional. Para didatizar vamos englobar os grupos, mesmo sabendo que não é correto fazê-lo, pois sempre há uma exceção à regra.

Síndrome da amnesia pedagógica


O primeiro grupo é dos professores. Esse grupo constitui o corpo docente, professores egressos das faculdades e universidades e que tomaram nota de uma vasta literatura tanto na sua área de formação específica (no caso dos professores especialistas) quanto pedagógica (no caso dos pedagogos). Passaram de 3 a 4 anos lendo e relendo teorias e conceitos. Fizeram planos de aula, técnicas de ensino e estudo de metodologias, mas ao chegar à escola fizeram uso do livro didático e do currículo escolar tal qual uma bíblia ou uma camisa de força. Limitaram-se a entrar em sala de aula, passar o texto na lousa (ainda que os alunos tenham livros) e mandar os alunos responderem questões. Em seguida, aplicam a prova (quando o fazem) e partem para o capítulo seguinte. Seu posicionamento com a direção é sempre crítico. Acham defeito em tudo: classificam a gestão escolar como incompetente, omissa, preguiçosa e enrolona, cumpridora cega de ordens do governo e por aí vai.

O segundo grupo é da gestão escolar. Esta dividida entre vice-direção e direção, coordenação pedagógica e supervisão escolar (englobando aqui todo o núcleo da diretoria de ensino, secretaria de ensino ou delegacias de ensino – dependendo da região). Este grupo tem a incumbência de organizar e administrar a escola, desde o projeto pedagógico, as finanças, prestação de contas, logística, fluxo de alunos e execução do projeto pedagógico. De formação igual ao do professor em sala de aula esses profissionais tendem a classificar o professor como enrrolão, preguiçoso, sem liderança, incompetente na sua função, sem postura e por aí vão os adjetivos negativos. Obviamente que a percepção daqueles que estão nas secretarias de ensino (ou diretorias regionais de ensino) é semelhante àqueles que estão na direção da escola e/ou na coordenação pedagógica, e o sentimento destes em relação àqueles também é mútuo.

Mas enfim, o que acontece para que exista esse jogo de empurra-empurra? Essa terceirização da responsabilidade do trabalho? Para melhor analisar este momento vamos lançar uso de um novo conceito que denominamos como a “Síndrome da Amnésia Pedagógica” (SAP). Esse conceito, até então desconhecido expressa o esquecimento de uma função, fazendo o profissional rapidamente cair no trabalho via senso comum, projetando nos outros os problemas causados pela sua função. Não obstante, esse ainda passa a trabalhar como um mero reprodutor do sistema cumprindo “sua função”.

No caso dos professores, esses se limitam a transcrever aquilo que os manuais indicam. Esquecem-se das metodologias, não conhecem (ou esqueceram) as tendências pedagógicas, os estudos filosóficos, sociológicos e psicológicos sobre a educação e/ou a História da educação.

No caso do segundo grupo, seu trabalho limita-se a tocar papel, preencher relatórios, responder estatísticas, gerar papel e papel, bater carimbos e fazer assinaturas em mais papeis.

Ao que tudo indica, quando o sujeito troca de função, tem-se a impressão de que este troca “de caverna” (fazendo alusão ao mito da caverna de Platão). Em pouco tempo de trabalho na nova função ele esquece o que aprendeu (ou deveria ter aprendido) na faculdade e limita-se ao descrito acima (reproduzir “o sistema”) e criticar os outros. Já o caso do segundo grupo é mais sério, pois os mesmos passaram por um bom tempo pela experiência da sala de aula e ao sair dela são acometidos da SAP onde passam a enxergar tudo com bons olhos e terceirizar o problema da educação, principalmente, aos professores.

Queremos chamar a atenção dos leitores para esse fato, que é de certa forma corriqueiro no meio escolar. Demos o nome de SAP ao esquecimento, momentâneo ou não, daquilo que já se fez ou professou em sala de aula quando da ida para uma função na gestão escolar, ou da volta à sala de aula. É interessante, pois o profissional nessa situação não percebe-se dessa forma e, com certeza, nos diria que estamos “viajando na maionese”. O curioso dessa situação é que todos independentes da função que exerçam na escola, deveriam remar para um mesmo sentido, de maneira que o resultado fosse aparente. O que vemos na realidade é que são diversos remadores, mas que o barco fica virando em volta, pois uns remam num sentido e outros noutro sentido. Isto porque, no nosso modo de ver, todos estão imersos no que chamamos de senso comum, sem a coragem de realizar algo novo, diferente. E qual é o senso comum nesse caso? É que a culpa sempre é dos outros e não nossa. É a terceirização da responsabilidade. Não podemos e, principalmente, não devemos esquecer que toda moeda tem dois lados e não são iguais. Se conseguirmos transcender nossos problemas pessoais e nos percebermos como um grupo, cujo interesse é a qualidade do ensino, evidentemente o barco irá andar num sentido apenas. Rumo ao sucesso.

É importante dizer que o jogo de empurra-empurra não vai levar ninguém a lugar algum, e que, se realmente quiser uma educação de qualidade o professor (independentemente da função que ocupa) deverá continuar estudando. Precisará sair do senso comum, da sua zona de conforto, mas se mesmo assim a SAP não for curada, recomendaremos sair da profissão e deixar para realmente quem está trabalhando com seriedade.

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
Articulista e palestrante.
icguedes@ig.com.br

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
Pós-Graduado em Química.

decamargo.omar@gmail.com

Para referenciar este artigo:

GUEDES, I. C.; CAMARGO, O. Síndrome da Amnésia Pedagógica. Gazeta Valeparaibana. Ed. 69. Ano IV. Disponível em: http://www.gazetavaleparaibana.com/069.pdf Ago, 2013, p.09.   

terça-feira, 2 de julho de 2013

O GIGANTE ACORDOU: E não foi por causa de R$ 0,20

Publicado originalmente no Jornal Gazeta Valeparaibana, p. 9. http://gazetavaleparaibana.com/068.pdf

As manifestações em torno do aumento da passagem de ônibus pelo Brasil vêm demonstrando a insatisfação da população com o atual sistema de governo. O problema não vem sendo somente em torno do aumento, 
mas sim de um problema mais profundo: o sistema de coronelismo no Brasil. 



Historicamente, o sistema político sempre foi controlado pelo topo da pirâmide, ou seja, pela elite brasileira. 
O tempo passou e a história do sistema político de “capitanias hereditárias” não mudou: a elite continuou no poder. Após a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, muitas águas rolaram: escolas foram abertas, a tecnologia entrou no país, novos mercados de trabalho foram abertos, o ensino superior cresceu, o consumo aumentou e tudo isso resultou na formação de uma nova classe média. A classe média, em termos vulgares, funciona como se fosse um sanduíche: é pressionado pelo pão de cima, e está em constante contato com a fatia do pão de base, ou seja, a classe trabalhadora baixa, o “povão”. Entretanto, como toda nova classe média, essa começou a se escolarizar e cobrar maiores benefícios do sistema público. Começaram cobrar melhores prestações de serviço e também passaram a querer participação política. 

 No final do século XX despontaram intelectualmente personagens como Betinho, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Caio Prado Jr., Milton Santos, Demerval Saviani e outros que influenciaram e influenciam a formação de professores críticos e ativos politicamente. Esses novos professores, também muitas vezes oriundos dessa nova classe média, começaram propagar as ideias de liberdade política e de justiça social. 

 Durante os primeiros anos do século XXI, vivenciamos a formação dessa nova classe média. É verdade que baseado no consumo fácil e exacerbado, boa parte dela procurou também sua intelectualização, começaram a ler mais, a ter mais opinião e consequentemente, cobrar mais do sistema público. O desenvolvimento tecnológico, principalmente no que  diz respeito ao chamado “Meio Técnico Científico-Informacional” e o “fácil” acesso aos novos meios de comunicação permitiram que a troca de ideias e a produção de novas ideias fosse acelerada e que pudesse chegar a qualquer lugar, pois bem, é o que estamos vivenciando. 

 Ainda que possamos estar vivenciando um novo capítulo da nossa história, ela começou a ser escrita. Escrita pela nova classe média, acompanhada daqueles que almejam também fazer parte dessa nova classe média (intelectual ou financeira), mas a voz, o grito ainda não chegou nas massas, na maioria da população. 

O nó na garganta ainda não se faz presente em muitas camadas da nossa sociedade, e é justamente neste ponto em que se faz necessária a atuação do professor enquanto um ótimo instrumento modificador da sociedade.  Pregamos a formação de um professor progressista, crítico e intelectualmente autônomo. Um professor politicamente atuante. Um professor que possa trazer à tona a vida do sujeito para sala de aula, e não simplesmente que cumpra cegamente um currículo ou um conteúdo que é “apoliticamente” induzido através das orientações curriculares oficiais dos sistemas de ensino, sejam eles: Federal, Estaduais ou Municipais. 

 Novamente trazemos a discussão do ensino da política para sala de aula, em forma de disciplina específica. 
Muitos professores e intelectuais acreditam que as disciplinas de História, Geografia, Sociologia e Filosofia deveriam fazer, e que não haveria necessidade de se incluir mais uma disciplina, mas diante de uma pesquisa empírica com várias escolas, vários docentes e mediante a análise de vários currículos, o que constatamos é que não o fazem. 

Não fazem por estarem amarrados a um currículo predeterminado (através dos Parâmetros Curriculares Nacionais e/ou normas e decretos legislativos estaduais ou municipais) que amarram também os autores de livros didáticos e manuais de ensino para que escrevam como o sistema público “propõe”, ou porque simplesmente não detêm o devido conhecimento para fazê-lo. 

 É nesse sentido que propomos há algum tempo o ensino de Ciência Política na escola básica (http://
www.politicanaescolabasica.blogspot.com.br). Colocar como disciplina escolar, em um currículo, o ensino da legislação, das devidas funções do poder público, das diferenças entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, do que pode ou não pode um representante da população, enfim, do que é a política. 

 Acreditamos piamente que essa nova conscientização política é um reflexo daqueles que escreveram a duras penas e pregaram aos quatro ventos a libertação do povo brasileiro (sobretudo durante os anos de ditadura militar). Se Paulo Freire, Caio Prado Jr., Milton Santos e tantos outros ainda estivessem vivos estariam orgulhosos em saber que seus trabalhos renderam resultados satisfatórios. Mas ainda há muito que fazer. 

É preciso fazer o “nó na garganta” chegar às camadas mais populares e “abrir os olhos” para que o cabresto imposto pelo populismo e pelas políticas de assistencialismo recentes esteja presentes em todos os segmentos da sociedade. Aí sim teremos uma nova revolução, consciente, crítica e politicamente participativa. Teremos novos tipos de candidatos às eleições, novos tipos de partidos políticos e quiçá o fim do sistema de coronelismo e feudalização do Sistema Público brasileiro, em que a corrupção impera e a impunidade é regra. 

 O gigante está acordando, mas ainda não se levantou por completo, é necessário que o relógio despertador continue tocando. 
 E não é por causa de R$ 0,20. 

* Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
Articulista e palestrante.
icguedes@ig.com.br
* Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
Pós-Graduado em Química.

Para referenciar este artigo:

GUEDES, I.C.; CAMARGO O. O gigante acordou: E não foi por causa de R$ 0,20. Gazeta Valeparaibana. Ed. 68. Ano IV. Disponível em: http://gazetavaleparaibana.com/068.pdf. Julho, 2013. p.9.
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