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domingo, 8 de junho de 2014

NÃO VAI TER COPA

      NÃO VAI TER COPA

Entenda o símbolo que há por trás dessa frase.


 Levar ao pé da letra os dizeres “não vai ter Copa”, é, no mínimo, se entregar à burrice (como diz Paulo Ghiraldelli Jr.). Não vai ter Copa se tornou um símbolo, uma figura de linguagem para externar o sentimento de culpa e revolta. Culpa por ter elegido um governo (seja Federal, Estadual ou Municipal) que não cumpriu com as suas promessas, e revolta, pelo mesmo motivo!

            Desde Outubro de 2007 até ao presente momento observamos a pressa do congresso nacional, dos Estados e dos Municípios em cumprir com as metas estabelecidas para a Copa. Obviamente que rodovias, vias de acesso, melhorias no transporte público e outras tarefas assumidas como prioridade não saíram do papel, mas vimos o congresso se articular rapidamente para votar leis a favor da Copa do mundo, a construção (ainda que porcamente e superfaturadas) dos estádios e a corrente gastança de dinheiro para este evento. O setor privado também se mobilizou: organizaram cursos de inglês, vendas de materiais e bugigangas e até flexibilizaram seus períodos de férias para que todos pudessem apreciar a Copa do mundo no Brasil.

            Mas como nem tudo são flores, também vimos as declarações dos “filósofos” Pelé, Ronaldo e mais recentemente do Lula utilizando a imprensa para dizer que a Copa do mundo vai acontecer, quer queiram ou não. E ainda mais, vimos todas as articulações dos grupos opositores para protestar contra a Copa do mundo. O problema não é a Copa do mundo ser no Brasil, muito pelo contrário, seria motivo de grande orgulho sediar tal evento!

Seria, se nossos problemas sociais fossem levados a sério tal como a Copa é levada! Não temos segurança, não temos educação, não temos hospitais, não temos estrutura urbana, não temos transportes, não temos transparência nas contas públicas, mas como disse o “fenômeno”: “Copa se faz com estádios, e não com hospitais” (Ronaldo).




Com a decisão de a Copa do mundo ser no Brasil, vimos um congresso articulado, eficiente, dinâmico e prestativo (para servir à Copa), enquanto isso o Plano Nacional de Educação continua penando no congresso, desde 2011 e já deveria estar em vigor!

É altamente errado dizer que a construção dos estádios demorou! Considerando o tempo 2007-2014 demoramos apenas 7 anos para concluir as obras. Vale lembrar que a transamazônica começou suas obras em 1970 e até hoje não foi concluída. A transposição do Rio São Francisco está engasgada desde 2007. Isso sem contar em diversas escolas e hospitais que atrasam suas reformas em dois, três ou quatro anos (sem falar no superfaturamento), usinas paradas há 25 anos, turbinas de usinas eólicas que nunca funcionaram, hidroelétricas que não foram concluídas, usinas de transmissão de energia que estão paradas... mas “vai ter Copa”.

Entenda, caro leitor, que o nosso problema não é com a Copa. O nosso problema é com a falta de vergonha na cara daqueles que deveriam nos representar. Sejam eles de qual partido forem!

Eis que surge em junho de 2013 as manifestações contra tudo e contra todos. Manifestações muito pertinentes com pautas bem articuladas, entretanto é preciso deixar claro que não adianta manifestar, quebrar tudo, reivindicar e continuar votando nas mesmas raposas, vender seu voto em troca de um saco de farinha ou de uma cesta básica. Não adianta protestar pedindo “mais educação”, ou 10% do PIB para a educação e não verificar o caderno do seu filho na escola.

Mas o nobre Pelé já tinha a solução para os nossos problemas: “Faltam 10 meses para começar a Copa. Não vai dar tempo para ver o que foi gasto. Então vamos aproveitar para arrecadar com turismo e compensar o dinheiro que foi roubado dos estádios”. Viu, simples assim!

Como é possível não se tomar de tamanha alegria diante das ilustres elucubrações ditadas pelos nossos ídolos? Como não se contagiar com tamanha festa? Como não entrar nos movimentos “não vai ter Copa” e cobrar dos ilustres corruptos e hipócritas que tem o poder da caneta?

Literalmente, é óbvio que haverá Copa, quer gostemos, ou não. Quer tenhamos outras prioridades, que já cobramos desde sempre, ou não. Mas é importante deixar claro para o mundo todo, para tudo e para todos os nossos descontentamentos. É preciso deixar claro para aqueles que deveriam nos representar que, aos poucos, estamos acordando.

Como disse a nossa “presidenta”: “O Brasil fará a Copa das Copas”. Realmente, esperamos que sim!

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo
Consultor e assessor pedagógico
icguedes@ig.com.br

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química
omacam@gmail.com


Para quem quiser acompanhar alguns links pesquisados:


Artigo publicado em 01 de junho de 2014 no jornal Gazeta Valeparaibana



quinta-feira, 24 de abril de 2014

EM BUSCA DA AULA PERDIDA

          EM BUSCA DA AULA PERDIDA

Buscar novos métodos e se atualizar sempre é obrigação primordial do professor



      Numa alusão ao filme “Em busca do tesouro perdido”, em que Nicolas Cage personifica  Benjamin, um caçador de tesouros, que durante toda sua vida procurou um tesouro que ninguém acreditava existir, resolvemos escrever esse artigo. Acreditamos que todos os professores, ao menos aqueles interessados, estão sempre à procura da aula perdida, ou aula perfeita como se fosse um tesouro que ninguém mais acredita existir, somente ele. Quem não se perguntou: O que está faltando? Onde posso melhorar? Será culpa do aluno ou eu não estou me fazendo entender?





                Uma coisa é certa, os tempos e as pessoas mudaram, e como mudaram. Uma aula regada à lousa e giz não atrai mais ninguém e se o professor parar para pensar verá que nem a ele agrada esse tipo de aula. Hoje em dia temos uma dinâmica muito maior, a interação com as coisas, pessoas, informações, etc. tudo está a um clique do mouse.

                Muitos professores se vêm perdidos diante de tanta informação rolando na tela de um IPhone ou Tablet nas mãos ágeis dos alunos. Então o que fazer?

                Muito se tem falado em despertar o interesse do aluno. Aliás, quem nunca ouviu a fala: - “Professor sua aula não é interessante, faça alguma coisa”. E aí você vai para casa e fica matutando no que fazer, remoendo seus pensamentos e se sentindo inferiorizado. Calma amigo professor, você não é o único a se preocupar com isso. A aula perfeita assim como um tesouro repousa perdida em algum lugar na nossa mente. É necessário buscá-la em nós mesmos, revolver nossos preconceitos, garimpar nossa didática, esmiuçar nossas metodologias e, quiçá buscar ajuda externa. Há um mundo novo a ser explorado, novas metodologias, novas possibilidades e o professor não pode ficar parado no tempo senão ele fica ultrapassado, velho antes do tempo. Depois da invenção do computador tudo ficou mais rápido, rápido até demais e nós professores ficamos focados nos ensinamentos que remontam ao século passado. Não queremos dizer que o que se aprendeu é descartável, pois não é. Numa comparação grosseira o que aprendemos é como um carro antigo, bem conservado que nos leva aonde queiramos ir, porém nada se compara com um carro atual, com ar condicionado, GPS, freios ABS e direção hidráulica. Bem, apenas citando alguns itens de conforto para a lista não ficar comprida. Percebe a diferença?

                Vivemos um momento de paradigmas sociais e filosóficos, que trazem no seu bojo certas tendências pedagógicas. O professor deve estar atento para as interações didático-pedagógicas que isto propicia e desta forma ir construindo sua prática educativa.

                O professor precisa se atualizar. Isto é indispensável para sua sobrevivência como professor. Aliás, como todo profissional, o professor precisa estar atualizado. É preciso estudar e conhecer diferentes opiniões, diferentes concepções pedagógicas e diferentes ideologias sobre a função do ensino. Fazendo uma alusão a outros profissionais, o advogado é obrigado a se atualizar diariamente, o engenheiro idem, o médico ibidem, e o professor? Porque lança o livro didático de baixo do braço e faz dele uma “bíblia”?

                Os diferentes níveis de ensino (Infantil, Fundamental I e II, Médio e Superior) requerem um conjunto de competências e habilidades de cada profissional que seja condizente com o a etapa em que esteja trabalhando. Um professor que atue em diferentes modalidades deve saber separar as necessidades de cada etapa e os embasamentos teóricos e metodológicos que permeiam orientações didáticas.

                Neste contexto figuram-se faculdades que não estão muito preocupadas em formar professores para diferentes segmentos de ensino. A formação do professor se faz, muitas vezes, nos cursos de pedagogia (para os atuantes na educação infantil e no ensino fundamental I). Estes pedagogos carregam em seus cursos uma carga razoável de teorias pedagógicas e estratégicas de ensino, mas o que dizer dos professores especialistas? Os cursos de formação de professores especialistas dão conta da sua carga específica e pedagógica? Porcamente há que se dizer,  os cursos de licenciaturas trabalham com Psicologia da Educação, Didática e Estrutura da Educação Básica, ou seja, três disciplinas que irão “atestar” ao aluno de ensino superior a competência de lecionar no ensino fundamental II e médio (e que muitas vezes são ministradas por “professores” que não possuem formação pedagógica).

                Apropriar-se de teorias e tendências pedagógicas certamente irá trazer inúmeras ferramentas para a solução dos acidentes de percurso durante sua vida como docente. Não estar preso a uma teoria apenas é uma maneira de manter a mente aberta e disposta à mudanças.

Muito se tem falado da formação do docente, ou melhor, da formação “ideal” do docente, porém tal discussão não tem passado de um embate teórico que nunca se transformou em realidade. A nossa diversidade cultural e econômica social é enorme e sugerir apenas um caminho é, no mínimo, inconsequente. Neste sentido temos as orientações curriculares que traçam apenas indicações de caminhos a serem trilhados e, convenhamos, é o máximo que se pode exigir de algo tão amplo.

Considerar que tudo possa ser resumido a aplicação de um saber metodológico, fundamentado epistemologicamente em outros campos de saberes é algo duvidoso, pois são tantos os meandros a serem percorridos na busca da aula perfeita (ou perdida) que apresentar uma fórmula seria como prender o professor a um método, assim como pretendia Comênio e a exemplo de Bacon que considerava possível resumir o ensinar/aprender a um método.

Com tantas inovações pululando em nossa volta, a escola de hoje é uma escola diferente daquela de ontem. Não chega ser um retrocesso, porém diríamos que é uma escola nova, cheia de novas possibilidades. Isto possibilita aos professores determinar novos rumos, investigar novas teorias, quiçá a sua própria teoria. É preciso nunca deixar de procurar pela aula perdida, numa constante transformação, num eterno aprender ensinando.

OMAR DE CAMARGO
Técnico Químico
Professor em Química
decamargo.omar@gmail.com

IVAN CLAUDIO GUEDES
Geógrafo e Pedagogo
Articulista e Palestrante
Especialista em Gestão Ambiental, mestre em Geociências e doutor em Geologia.


icguedes@ig.com.br

Publicado originalmente em: http://www.gazetavaleparaibana.com/077.pdf 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

SOBRE FALTAS E EVASÃO ESCOLAR: A responsabilização da Escola

No mês de Janeiro de 2014 publicamos o artigo “Quem é o maior responsável pela educação do meu filho?” e tal artigo gerou uma discussão que não foi o nosso objetivo. Não tivemos como pretensão discutir os “porquês” dos alunos não frequentarem a escola. Não tivemos como objetivo discutir o sistema escolar e a falta de vontade em estudar. Tivemos, sim, como meta apresentar os aspectos legais sobre a frequência do aluno à escola, e isso foi bem exposto.



            Chegamos à conclusão de que a escola é o grande responsável por acompanhar, orientar e, se necessário, acionar o Conselho Tutelar e/ou o Poder Judiciário para que a criança e o adolescente estejam dentro da escola. A tarefa de acompanhar sistematicamente a presença dos alunos é árdua e trabalhosa. Nas escolas públicas os números de alunos variam de 1.000 a 2.000 alunos. O acompanhamento sistemático é difícil diante das diversas tarefas que os professores, coordenadores, orientadores educacionais e diretores realizam rotineiramente, isso sem contar as tarefas que não estão na rotina administrativa tais como: atendimento inesperado de pais de alunos, brigas entre alunos, materiais que somem, solicitações diversas de outros órgãos, etc. Entretanto é preciso incluir na rotina administrativa o acompanhamento sistemático da frequência escolar, pois ao chegar ao final do ano ou no término do bimestre, o pai ao ser comunicado que seu filho está há algum tempo faltando à escola, tem como primeira reação impulsionar a responsabilidade da comunicação à escola. E não está errado.

            Para uma escola de ensino fundamental II e médio em que os alunos tem cinco ou seis aulas por dia, com cinco ou seis professores diferentes por dia se torna inviável acompanhar diariamente de oito a doze diários, ainda mais com escolas que funcionam com quinze ou vinte salas por período (três períodos por dia).

            Em escolas particulares em que o número de alunos e de salas é menor, e o número de funcionários é maior, torna-se mais fácil fazer este acompanhamento, entretanto é necessário lembrar que a quantidade de ausências é bem menor e, via de regra, conhecem-se os alunos e seus pais pelo nome e sobrenome.

            É fato que o acompanhamento dos pais causa muita diferença na vida do escolar do seu filho. Mesmo na rede pública, o acompanhamento escolar dos pais, avós, tios ou um irmão mais velho traz para o aluno a visão de que ele está sendo acompanhado e cobrado pelas suas tarefas, por isso é importante apresentar e executar alguma estratégia que os tragam para a vida escolar das crianças e adolescentes.

            No caso da escola pública com uma grande quantidade de alunos e de salas é possível realizar tarefas simples, que vai custar algum tempo, mas que vai diminuir muito o problema do excesso de faltas e a evasão escolar (sem a ciência dos pais -, por vezes, é preciso lembrar, que os pais também são coniventes).

            Uma pasta simples, com um quadro dividido em datas, e folhas impressas por semana, é possível marcar a chamada dos alunos e verificar, logo na segunda feira subsequente, quem teve muitas faltas. Orientamos para que os alunos que tiverem 2 faltas na mesma semana, deverão ter seus pais comunicados, mesmo pelo telefone. Ao realizar o telefonema, anote o horário e o nome de com quem conversou. A anotação deverá ir para o prontuário do aluno para que não se perca no meio de “livros de controle”. Se não for possível colocar tais controles nos prontuários da secretaria, a coordenação pode criar sua própria gaveta de prontuários de acompanhamento pedagógico (com as fichas de aproveitamento, faltas, ocorrências escolares, etc.).


Acreditamos que o acompanhamento sistemático possa trazer bons frutos no que diz respeito à falta do aluno. Concomitante a isso é necessário investigar as causas de tal falta de interesse dos alunos e partir para outra frente de batalha, mas isso já é outra conversa.




OMAR DE CAMARGO
Técnico Químico
Professor em Química
decamargo.omar@gmail.com

IVAN CLAUDIO GUEDES
Geógrafo e Pedagogo
Articulista e Palestrante
Especialista em Gestão Ambiental, mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
icguedes@ig.com.br

Artigo publicado originalmente em http://www.gazetavaleparaibana.com/075.pdf - p. 9

Para referenciar este artigo:
CAMARGO, O.; GUEDES, I.C. Sobre faltas e evasão escolar: A responsabilização da escola. Gazeta Valeparaibana. Ed. 75. Ano VII. Disponível em , 2014, p. 9.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

QUEM É O MAIOR RESPONSÁVEL PELA EDUCAÇÃO DO MEU FILHO?

Recentemente foi divulgado nas redes sociais que um juiz de Goiás multou uma mãe pela omissão na educação do seu filho. Em Fernandópolis-SP, um juiz da Vara da Infância causou polêmica muitas vezes por multar igualmente os pais que não exerciam poder familiar sobre seus filhos.

Sabemos que a educação é complexa e possui várias ramificações. É preciso respeitar o choque de gerações, culturas e preceitos étnicos e religiosos, mas não é neste ponto que queremos discutir. Queremos discutir o acompanhamento das crianças dentro do ambiente escolar. Queremos discutir a responsabilização
dos pais diante dos atos dos seus filhos.

Primeiramente devemos expor o que se entende por escola. Apresentamos duas linhas opostas: (1) a escola enquanto depósito de crianças, onde os pais colocam seus filhos para se verem livres por alguns momentos e, (2) a escola enquanto espaço de formação acadêmica e de desenvolvimento intelectual e corporal.

Se aceitarmos a escola dentro da perspectiva do primeiro ponto, é melhor parar por aqui e não será preciso discutir nada. Entretanto, é no segundo ponto que devemos nos focar. Tratar a escola enquanto um espaço de desenvolvimento sociocultural do indivíduo.

Muitas vezes os pais pensam que ao colocar seu filho dentro da escola, tudo caminhará normalmente, sem choques de interesse, sem stress, sem brigas com os colegas, sem falta de materiais, sem quaisquer atos de indisciplina ou de falta de educação. Entretanto, é sabido que a escola é reflexo da sociedade e que
a sociedade de reproduz dentro da escola, portanto, chega ser natural a existência de conflitos sociais dentro deste ambiente.

Mas o que fazer quando os pais não garantem a presença do seu filho na escola? O que fazer quando os pais não garantem a manutenção dos estudos e a conduta do seu filho? O que fazer quando os pais não acompanham a vida escolar do seu filho? O que fazer quando os filhos controlam os pais?

Do ponto de vista legal vamos nos apoiar basicamente na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CR), no Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990 (ECA) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDB). Do que nos interessa para explanar esse artigo recomendamos a seguinte leitura: CP – Art. 205 ao 214, ECA – Art. 54 ao 56, 112 ao 117, 129 ao 138, 245 e 249,
LDB – Art. 5, 6 e 12.

A nossa legislação a partir de 1988, pós regime militar, foi baseada dentro de uma concepção de Estado de Bem Estar Social (Welfare State), onde o Estado assume as responsabilidades pela condução da sociedade. Acontece que anos após 1988, o que vivemos é um intenso regime de assistencialismo paternalista onde o Estado (sem estrutura e sem competência) assume, inclusive, a educação sobre a sociedade. Entretanto, é preciso frisar que a mesma legislação também compartilha sua responsabilidade com os pais, a família e a
sociedade, ou seja, todos são responsáveis pela educação das crianças.

Observe que a legislação sempre aponta a responsabilidade do Estado em zelar pela chamada, acompanhar o desenvolvimento do aluno, primar pelo seu desenvolvimento, etc. observe também que os pais sempre são chamados à responsabilidade, mas de nada adianta estar na legislação se não se faz valer. Fazer valer a legislação é convocar os pais sempre que necessário, enviar bilhete, telefonar e enviar carta registrada via correio, se mesmo assim os responsáveis não comparecerem, deve-se encaminhar ao Conselho Tutelar. Se o menor continuar faltando sem justificativa, deve-se encaminhar novamente, e assim deve ser quantas vezes for preciso. É necessário deixar bem claro que neste momento o professor (neste caso, representante legal do Estado), está fazendo valer a legislação citada, as medidas administrativas deverão ser tomadas pela
autoridade competente (neste caso, o Juiz da Vara da Infância e da Juventude).

Ainda que o caminho possa parecer tortuoso, trabalhoso e burocrático (e é), a escola deve-se prover dos meios necessários para que enquanto “Estado” cumpra com o seu papel determinado. O que vemos cotidianamente é a omissão deste acompanhamento sistemático por conta de diversos outros fatores que envolvem o trabalho docente e o trabalho administrativo de uma escola.

Agora, vamos supor que nada disso tenha sido feito e que ocorra algum problema com a criança ou adolescente na rua. Pois bem, a Polícia Militar encaminhará para a delegacia onde será lavrado o boletim de ocorrência sobre o fato, em seguida será verificado porque o menor estava na rua, adiante será averiguado
porque os pais não foram comunicados. Depois, porque o Conselho Tutelar não foi levado à ciência e, por fim, a escola poderá ser responsabilizada sobre o seu não cumprimento do papel de zelar pelo(a) menor.
Pois bem, professor(res) (igualmente coordenadores e diretores), se vocês não atentarem ao que foi escrito acima, poderão ser responsabilizados pela má educação dos filhos dos outros.

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
decamargo.omar@gmail.com

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo.
Articulista e Palestrante.
Especialista em Gestão Ambiental. Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
icguedes@ig.com.br

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para onde caminha a humanidade? (II)

 Para onde caminha a humanidade? (II)

Não adianta chorar pelo leite derramado. Ou seja, se não educar seu filho desde cedo, não vai adiantar querer começar aos quinze anos de idade, quando talvez já for tarde de mais.





  
Uma célebre frase de Molière diz que “Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer”. Muito se tem falado no que se tem feito para diminuir a violência. Mas o que deixamos de fazer? E é nesse ponto que entramos com aquilo que dissemos da terceirização das responsabilidades.

A violência ganha um sentido mais amplo se nos responsabilizarmos por aquilo que deixamos de fazer. Percebam que, quando deixamos de verificar uma lição de casa, ou quando permitimos que uma criança se exceda em sua birra, ou damos à criança muito além daquilo que seria necessário, no intuito de aplacar nossa consciência pela ausência provocada por nós mesmos e pela desculpa de não ter tempo em função do trabalho ou algo assim, estamos afastando essa criança do convívio e com o tempo passando ela irá tomar isso como desinteresse dos pais por ela, daí à violência é um passo, pois o que ela quer é atenção, ser repreendida, coisa que nunca foi.

A violência abrange todos os níveis sociais, e a violência escolar é apenas uma das facetas da violência que vemos emergir por aí, ela não tem preferência por cor, raça, religião ou condição social. Na organização da nossa sociedade atual ela adquire um papel primordial devido às interações de uma série de fatores políticos, socioeconômicos e também culturais tanto de grupos sociais como de áreas determinadas. Porém cabe destacar um grupo especialmente vulnerável que são as crianças e adolescentes. Considerando a escola como um espaço de socialização do indivíduo, é óbvio que os conflitos irão aparecer.

            Vamos nos arriscar a dizer que a violência pode ser fruto da falta de educação. Ora, se a terceirização da educação é uma realidade moderna porque não também dizer que a banalização da violência escolar também é.

            O que gera muitas vezes na escola a violência (verbal, física ou intelectual) é a falta de educação. A sociedade moderna é uma sociedade de privilégios, e não de direitos (e muito menos de deveres). Todo mundo está certo e todo mundo tem razão. Chegamos a pensar que está faltando normas claras de convivência em sociedade.

            Ao longo dos tempos quem ditava tais normas era a Igreja. Em outros tempos as normas foram ditadas pelos governos. Consequentemente a família ditava as normas aos seus filhos e aos filhos dos filhos. Com a quebra do poder da igreja e com a abertura para a democracia o Brasil deixou de ter normas claras de convivência. Os valores de uma época se perderam e não existe mais o porque de se cumprir com determinadas tarefas, ou de respeitar determinadas pessoas (como se umas merecessem mais respeito do que outras).

            Na política a corrupção se banalizou e virou algo aceitável. A legislação trouxe demasiados privilégios para o mundo do crime. O poder público tirou a responsabilidade dos pais sobre a educação do seu filho (inclusive proibindo a palmada pedagógica). A Constituição de 1988 é bem clara quando diz no artigo 205 que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Ora, é neste momento que a “educação”. Ou seja, a educação é colocada, antes pelo Estado do que pela família (esta em segundo lugar).

            No que diz respeito a educação que a família deve colocar aos seus filhos, os limites e os valores que desejam inserir é preciso repetir a célebre frase “quem pariu Mateus que o crie”. Sendo assim, vale algumas dicas:

1. Professor não é pai. Professor deve ensinar competências e habilidades conforme um plano de ensino.
2. Babá não é mãe, babá deve ser um complemento às necessidades da família.
3. Aluno é aluno durante um ano, ou um período. Filho é filho para sempre.
4. Dizer não ao seu filho não vai traumatizá-lo. Vai ensinar que ele não pode ter tudo e que não é a pessoa mais importante do mundo.
5. Escola não é reformatório. Escola é um espaço de interação social para que se aprendam os conteúdos mínimos para viver em sociedade.
6. Pai e mãe devem ser os responsáveis pelos atos dos seus filhos.
7. Proteger seu filho quando estiver errado hoje pode significar assumir a culpa por um assassinato amanhã (ainda que [não] seja só um acidente beber e dirigir).
8. Não espere que seus filhos não sigam seus exemplos. Nenhuma criança aprende a falar mal, brigar, ser nervoso, cuidar da vida alheia, fazer picuinhas, distribuir fofocas e ser mal educado sozinho.
9. Não acredite que a sociedade ou “a vida” vai educar o seu filho. Muito pelo contrário, o que podem fazer é ensinar, e geralmente, aquilo que não presta.


10. Não adianta chorar pelo leite derramado. Ou seja, se não educar seu filho desde cedo, não vai adiantar querer começar aos quinze anos de idade, quando talvez já for tarde de mais.


Omar de Camargo 
Técnico Químico 
Professor em Química. 
Pós-Graduado em Química. 
decamargo.omar@gmail.com 

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo.
Articulista e palestrante.
Especialista em Gestão Ambiental, mestre em Geociências. Doutorando em Geologia Regional.
icguedes@ig.com.br

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

SÍNDROME DA AMNÉSIA PEDAGÓGICA

SÍNDROME DA AMNÉSIA PEDAGÓGICA


Você já reparou quantas visões diferentes há sobre uma mesma escola? Já parou para analisar a opinião dos seus colegas sobre seu próprio trabalho? Já trocou ideias com outros trabalhadores da educação para ver quantas opiniões diversas há sobre o trabalho docente? Há algum tempo temos percebido as diferentes visões que pairam sobre o sistema educacional. Para didatizar vamos englobar os grupos, mesmo sabendo que não é correto fazê-lo, pois sempre há uma exceção à regra.

Síndrome da amnesia pedagógica


O primeiro grupo é dos professores. Esse grupo constitui o corpo docente, professores egressos das faculdades e universidades e que tomaram nota de uma vasta literatura tanto na sua área de formação específica (no caso dos professores especialistas) quanto pedagógica (no caso dos pedagogos). Passaram de 3 a 4 anos lendo e relendo teorias e conceitos. Fizeram planos de aula, técnicas de ensino e estudo de metodologias, mas ao chegar à escola fizeram uso do livro didático e do currículo escolar tal qual uma bíblia ou uma camisa de força. Limitaram-se a entrar em sala de aula, passar o texto na lousa (ainda que os alunos tenham livros) e mandar os alunos responderem questões. Em seguida, aplicam a prova (quando o fazem) e partem para o capítulo seguinte. Seu posicionamento com a direção é sempre crítico. Acham defeito em tudo: classificam a gestão escolar como incompetente, omissa, preguiçosa e enrolona, cumpridora cega de ordens do governo e por aí vai.

O segundo grupo é da gestão escolar. Esta dividida entre vice-direção e direção, coordenação pedagógica e supervisão escolar (englobando aqui todo o núcleo da diretoria de ensino, secretaria de ensino ou delegacias de ensino – dependendo da região). Este grupo tem a incumbência de organizar e administrar a escola, desde o projeto pedagógico, as finanças, prestação de contas, logística, fluxo de alunos e execução do projeto pedagógico. De formação igual ao do professor em sala de aula esses profissionais tendem a classificar o professor como enrrolão, preguiçoso, sem liderança, incompetente na sua função, sem postura e por aí vão os adjetivos negativos. Obviamente que a percepção daqueles que estão nas secretarias de ensino (ou diretorias regionais de ensino) é semelhante àqueles que estão na direção da escola e/ou na coordenação pedagógica, e o sentimento destes em relação àqueles também é mútuo.

Mas enfim, o que acontece para que exista esse jogo de empurra-empurra? Essa terceirização da responsabilidade do trabalho? Para melhor analisar este momento vamos lançar uso de um novo conceito que denominamos como a “Síndrome da Amnésia Pedagógica” (SAP). Esse conceito, até então desconhecido expressa o esquecimento de uma função, fazendo o profissional rapidamente cair no trabalho via senso comum, projetando nos outros os problemas causados pela sua função. Não obstante, esse ainda passa a trabalhar como um mero reprodutor do sistema cumprindo “sua função”.

No caso dos professores, esses se limitam a transcrever aquilo que os manuais indicam. Esquecem-se das metodologias, não conhecem (ou esqueceram) as tendências pedagógicas, os estudos filosóficos, sociológicos e psicológicos sobre a educação e/ou a História da educação.

No caso do segundo grupo, seu trabalho limita-se a tocar papel, preencher relatórios, responder estatísticas, gerar papel e papel, bater carimbos e fazer assinaturas em mais papeis.

Ao que tudo indica, quando o sujeito troca de função, tem-se a impressão de que este troca “de caverna” (fazendo alusão ao mito da caverna de Platão). Em pouco tempo de trabalho na nova função ele esquece o que aprendeu (ou deveria ter aprendido) na faculdade e limita-se ao descrito acima (reproduzir “o sistema”) e criticar os outros. Já o caso do segundo grupo é mais sério, pois os mesmos passaram por um bom tempo pela experiência da sala de aula e ao sair dela são acometidos da SAP onde passam a enxergar tudo com bons olhos e terceirizar o problema da educação, principalmente, aos professores.

Queremos chamar a atenção dos leitores para esse fato, que é de certa forma corriqueiro no meio escolar. Demos o nome de SAP ao esquecimento, momentâneo ou não, daquilo que já se fez ou professou em sala de aula quando da ida para uma função na gestão escolar, ou da volta à sala de aula. É interessante, pois o profissional nessa situação não percebe-se dessa forma e, com certeza, nos diria que estamos “viajando na maionese”. O curioso dessa situação é que todos independentes da função que exerçam na escola, deveriam remar para um mesmo sentido, de maneira que o resultado fosse aparente. O que vemos na realidade é que são diversos remadores, mas que o barco fica virando em volta, pois uns remam num sentido e outros noutro sentido. Isto porque, no nosso modo de ver, todos estão imersos no que chamamos de senso comum, sem a coragem de realizar algo novo, diferente. E qual é o senso comum nesse caso? É que a culpa sempre é dos outros e não nossa. É a terceirização da responsabilidade. Não podemos e, principalmente, não devemos esquecer que toda moeda tem dois lados e não são iguais. Se conseguirmos transcender nossos problemas pessoais e nos percebermos como um grupo, cujo interesse é a qualidade do ensino, evidentemente o barco irá andar num sentido apenas. Rumo ao sucesso.

É importante dizer que o jogo de empurra-empurra não vai levar ninguém a lugar algum, e que, se realmente quiser uma educação de qualidade o professor (independentemente da função que ocupa) deverá continuar estudando. Precisará sair do senso comum, da sua zona de conforto, mas se mesmo assim a SAP não for curada, recomendaremos sair da profissão e deixar para realmente quem está trabalhando com seriedade.

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
Articulista e palestrante.
icguedes@ig.com.br

Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
Pós-Graduado em Química.

decamargo.omar@gmail.com

Para referenciar este artigo:

GUEDES, I. C.; CAMARGO, O. Síndrome da Amnésia Pedagógica. Gazeta Valeparaibana. Ed. 69. Ano IV. Disponível em: http://www.gazetavaleparaibana.com/069.pdf Ago, 2013, p.09.   

terça-feira, 2 de julho de 2013

O GIGANTE ACORDOU: E não foi por causa de R$ 0,20

Publicado originalmente no Jornal Gazeta Valeparaibana, p. 9. http://gazetavaleparaibana.com/068.pdf

As manifestações em torno do aumento da passagem de ônibus pelo Brasil vêm demonstrando a insatisfação da população com o atual sistema de governo. O problema não vem sendo somente em torno do aumento, 
mas sim de um problema mais profundo: o sistema de coronelismo no Brasil. 



Historicamente, o sistema político sempre foi controlado pelo topo da pirâmide, ou seja, pela elite brasileira. 
O tempo passou e a história do sistema político de “capitanias hereditárias” não mudou: a elite continuou no poder. Após a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, muitas águas rolaram: escolas foram abertas, a tecnologia entrou no país, novos mercados de trabalho foram abertos, o ensino superior cresceu, o consumo aumentou e tudo isso resultou na formação de uma nova classe média. A classe média, em termos vulgares, funciona como se fosse um sanduíche: é pressionado pelo pão de cima, e está em constante contato com a fatia do pão de base, ou seja, a classe trabalhadora baixa, o “povão”. Entretanto, como toda nova classe média, essa começou a se escolarizar e cobrar maiores benefícios do sistema público. Começaram cobrar melhores prestações de serviço e também passaram a querer participação política. 

 No final do século XX despontaram intelectualmente personagens como Betinho, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Caio Prado Jr., Milton Santos, Demerval Saviani e outros que influenciaram e influenciam a formação de professores críticos e ativos politicamente. Esses novos professores, também muitas vezes oriundos dessa nova classe média, começaram propagar as ideias de liberdade política e de justiça social. 

 Durante os primeiros anos do século XXI, vivenciamos a formação dessa nova classe média. É verdade que baseado no consumo fácil e exacerbado, boa parte dela procurou também sua intelectualização, começaram a ler mais, a ter mais opinião e consequentemente, cobrar mais do sistema público. O desenvolvimento tecnológico, principalmente no que  diz respeito ao chamado “Meio Técnico Científico-Informacional” e o “fácil” acesso aos novos meios de comunicação permitiram que a troca de ideias e a produção de novas ideias fosse acelerada e que pudesse chegar a qualquer lugar, pois bem, é o que estamos vivenciando. 

 Ainda que possamos estar vivenciando um novo capítulo da nossa história, ela começou a ser escrita. Escrita pela nova classe média, acompanhada daqueles que almejam também fazer parte dessa nova classe média (intelectual ou financeira), mas a voz, o grito ainda não chegou nas massas, na maioria da população. 

O nó na garganta ainda não se faz presente em muitas camadas da nossa sociedade, e é justamente neste ponto em que se faz necessária a atuação do professor enquanto um ótimo instrumento modificador da sociedade.  Pregamos a formação de um professor progressista, crítico e intelectualmente autônomo. Um professor politicamente atuante. Um professor que possa trazer à tona a vida do sujeito para sala de aula, e não simplesmente que cumpra cegamente um currículo ou um conteúdo que é “apoliticamente” induzido através das orientações curriculares oficiais dos sistemas de ensino, sejam eles: Federal, Estaduais ou Municipais. 

 Novamente trazemos a discussão do ensino da política para sala de aula, em forma de disciplina específica. 
Muitos professores e intelectuais acreditam que as disciplinas de História, Geografia, Sociologia e Filosofia deveriam fazer, e que não haveria necessidade de se incluir mais uma disciplina, mas diante de uma pesquisa empírica com várias escolas, vários docentes e mediante a análise de vários currículos, o que constatamos é que não o fazem. 

Não fazem por estarem amarrados a um currículo predeterminado (através dos Parâmetros Curriculares Nacionais e/ou normas e decretos legislativos estaduais ou municipais) que amarram também os autores de livros didáticos e manuais de ensino para que escrevam como o sistema público “propõe”, ou porque simplesmente não detêm o devido conhecimento para fazê-lo. 

 É nesse sentido que propomos há algum tempo o ensino de Ciência Política na escola básica (http://
www.politicanaescolabasica.blogspot.com.br). Colocar como disciplina escolar, em um currículo, o ensino da legislação, das devidas funções do poder público, das diferenças entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, do que pode ou não pode um representante da população, enfim, do que é a política. 

 Acreditamos piamente que essa nova conscientização política é um reflexo daqueles que escreveram a duras penas e pregaram aos quatro ventos a libertação do povo brasileiro (sobretudo durante os anos de ditadura militar). Se Paulo Freire, Caio Prado Jr., Milton Santos e tantos outros ainda estivessem vivos estariam orgulhosos em saber que seus trabalhos renderam resultados satisfatórios. Mas ainda há muito que fazer. 

É preciso fazer o “nó na garganta” chegar às camadas mais populares e “abrir os olhos” para que o cabresto imposto pelo populismo e pelas políticas de assistencialismo recentes esteja presentes em todos os segmentos da sociedade. Aí sim teremos uma nova revolução, consciente, crítica e politicamente participativa. Teremos novos tipos de candidatos às eleições, novos tipos de partidos políticos e quiçá o fim do sistema de coronelismo e feudalização do Sistema Público brasileiro, em que a corrupção impera e a impunidade é regra. 

 O gigante está acordando, mas ainda não se levantou por completo, é necessário que o relógio despertador continue tocando. 
 E não é por causa de R$ 0,20. 

* Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo. Especialista em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
Articulista e palestrante.
icguedes@ig.com.br
* Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.
Pós-Graduado em Química.

Para referenciar este artigo:

GUEDES, I.C.; CAMARGO O. O gigante acordou: E não foi por causa de R$ 0,20. Gazeta Valeparaibana. Ed. 68. Ano IV. Disponível em: http://gazetavaleparaibana.com/068.pdf. Julho, 2013. p.9.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

REFLEXÕES SOBRE EDUCAÇÃO, EDUCABILIDADE E EDUCATIVIDADE

Publicado originalmente no Jornal Gazeta Valeparaibana, Junho de 2013  http://www.gazetavaleparaibana.com/067.pdf  página9.

Para entendermos melhor o que quer dizer cada uma dessas palavras, temos que defini-las. 

Educabilidade é a qualidade daquele que é educável. O ser humano possui educabilidade, ou seja, pode ser educado. Lembrando que a “educação” vai muito além da educação escolar, por isso são compreendidas: a educação formal, informal e não formal. 

Educatividade é basicamente potencializar qualidades. A EDUCATIVIDADE na educação formal refere-se a potencializar no aluno, qualidades que ele porventura já tenha e que esteja disposto a melhorá-las. Pois, segundo Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia, é enfatizado que “nenhuma escola conseguirá fazer mais por um aluno do que a sua decisão pessoal de se desenvolver, de crescer, de aprender, de adquirir conhecimentos”. Daí, que se um aluno (entendendo como qualquer ser humano) não quiser aprender, não haverá mágica que o faça aprender. 

Diante da apresentação desses conceitos e somando-se ao artigo publicado no mês passado “Porque o professor precisa estudar?” (http://www.gazetavaleparaibana.com/066.pdf - p.9), tem que se propor um novo eixo, pois a maioria das práticas pedagógicas escolares ainda trabalha no sentido da mera transmissão de conhecimentos e desta forma, nada acrescentam no desenvolvimento do aluno enquanto ser humano. Esse novo eixo deve ser comportamental e direcionado não só ao campo profissional, mas também ao campo pessoal. Eis que novamente chamamos a atenção para Zaballa (A prática educativa: como ensinar), quando trata da prática pedagógica dentro da aprendizagem de conteúdos Factuais, Conceituais, Procedimentais e Atitudinais. 

 Compreendemos que a educação escolar é uma via de mão dupla, ou seja, tem que haver um aluno para “aprender” e um professor para “ensinar”, para que o processo se complete, é necessário que o aluno apresente educabilidade, ou seja, seja maleável e permeável aos ensinamentos e também possua educatividade, quer dizer, desejo de aprender novos conhecimentos, bem como o professor deverá ter clareza do seu papel em sala de aula. Se assim não for, a escola, enquanto espaço de aprendizagem, nada poderá fazer. Como diriam os antigos, “é malhar em ferro frio”. 

 Esse processo, assim colocado, nos faz lembrar de uma notícia que havíamos comentado em um dos nossos programas sobre uma nova designação para o professor que seria o “designer de currículo”, este profissional não seria um mero transmissor de conhecimentos, mas seria uma espécie de tutor do aluno que então escolheria o que quer aprender. Isso vem de encontro ao que falamos de educatividade, ou seja, potencializar qualidades que promovam não só o lado técnico, mas também o humano. 

Aliada à educabilidade, a educatividade faz todo sentido; é como dizemos na gíria popular “juntar a fome com vontade de comer”. Mas, claro nem tudo é um mar de rosas, e é evidente que não temos visto educabilidade e tampouco educatividade em nossos alunos, assim como também não é muito comum encontrar, grosso modo, o professor realmente consciente do seu trabalho. Ao contrário, o que vemos é uma total, ou quase total, indiferença em relação à escola e aos seus professores, e vice-versa. Por que essa apatia? O que diferencia essas gerações recentes de alunos das gerações passadas? Qual o papel do professor nesse processo? 

 Para tentarmos buscar algo que nos norteie, temos que necessariamente fazer um passeio pelas ideias de Platão onde ele junta numa amálgama, o filósofo, o educador e o político. Para Platão, esses três não podendo ser separados devem ser exercidos pela mesma pessoa, isto é, o filósofo educador tem que fazer política. Daí a pergunta inevitável – Quem em sala de aula, enquanto professor desenvolve ideias filosóficas e com isso, transforma o aluno em um ser político e pensador? Assim como a pergunta foi inevitável a resposta também o é: quase ninguém. E por quê? 

Tentamos buscar resposta na filosofia liberal da educação em que a finalidade última: são os ensinamentos profissionalizantes e, desta forma, extinguiram a figura do professor filósofo, pensador e consequentemente político.  As universidades por sua vez, ávidas em atender ao novo modelo educacional, nitidamente (neo) liberal, onde a produção é corroborada pelo capitalismo visceral, começam a produzir professores que venham de encontro aos interesses da sociedade, ou seja, se parou de pensar e fazer política em função do aumento de produção em que o país se viu inserido. Morre assim a figura do professor crítico, provocador, construtor, incentivador, transmissor de ideias e altamente político; consequentemente os novos professores passaram a produzir novos alunos que não criticam o sistema e tampouco fazem política. 

Estão assim dissociados aquilo que para Platão seria indissociável, o educador filósofo e político. Vamos tentar estabelecer um parâmetro entre educabilidade, educatividade e os conceitos de educação redentora, educação reprodutora e educação transformadora, a fim de entendermos a nós mesmos enquanto professores. 

 Na corrente filosófica que entende a educação como redentora do ser humano tem-se o pensamento de que a educação pode e deve salvar o indivíduo e consequentemente a sociedade. A educação redentora é assim por dizer uma instância exterior à sociedade, buscando inserir o indivíduo nela, ou seja, promovendo sua adaptação ao modelo existente. Atua sobre a sociedade corrigindo seus desvios. Nesse modelo, a educação redentora, no máximo tenta “curar as mazelas da sociedade existente”, através da simples obediência aos mandamentos divinos. Não leva em conta a educatividade, pois o educando poderia não querer ser “salvo”. Considera as gerações mais novas (crianças) mais educáveis do que os adultos e nesse aspecto temos aí inserido o conceito de educabilidade no tocante às crianças. 

 A segunda corrente filosófica entende que a educação está inserida na sociedade, faz parte dela. Estaria assim condicionada a fatores econômicos, sociais e políticos. A educação reprodutora é crítica e reproduz seus elementos condicionantes (LUCKESI, C. C. Filosofia da Educação, p. 41). Essa teoria também é denominada por Demerval Saviane como “teoria crítico – reprodutivista”. Traz ainda em seu bojo o modelo marxista de infra estrutura e supra estrutura, conforme Althuser. Desta maneira, silenciosamente a escola reproduz o ideologismo do Estado. O Estado usa a educação/escola para reproduzir os valores necessários para a própria sobrevivência da sociedade. Utiliza-se da Educabilidade dos mais novos e introduz para os adolescentes o ensino profissionalizante. Extinguindo dessa forma os dois cursos existentes, o Clássico e o Científico. Perde aí o jovem a possibilidade de escolher ou decidir o que gostaria de fazer. A Educatividade, de certa forma, é introduzida com os cursos profissionalizantes, pois oferece aos jovens a oportunidade de melhorar suas habilidades ou então adquirir habilidades para o exercício de uma profissão. 

 Na terceira corrente filosófica, (cf. LUCKESI) é a aquela em que a educação é vista como um agente transformador da sociedade, tendo como perspectiva a mediação de um projeto social. Nesta proposta a educação não é um fim, mas um meio. 

Uma maneira de realizar um projeto de sociedade. Sendo assim, Ela irá se adaptar segundo o modelo de sociedade vigente num determinado momento. Para que seja transformadora é necessário que os educandos tenham atingido uma determinada autonomia intelectual. Para que esse nível seja atingido é necessário que o aluno seja respeitado na sua educatividade (consideramos que ele tenha a educabilidade necessária), ou seja, para que o aluno seja um agente transformador é necessário que ele, de posse de suas habilidades, queira aprimorá-las criando nele a autonomia requerida no processo transformador. Nesse sentido, entendemos que o professor também o deve ser, pois não dá para ensinar o que não se sabe. Não da para querer transformar um aluno e o “eu” não for transformado primeiro. 

 A educação, qualquer que seja a corrente filosófica, nada conseguirá se não houver o real interesse em aprender. A educabilidade advém, segundo nossa opinião, dos ensinamentos recebidos em casa, da docilidade do lar e dos pais. A educatividade terá que ser estimulada a partir de um determinado momento em que se perceba as habilidades natas do aluno e de seu interesse em desenvolvê-las. Para tal é necessário que o professor esteja apto a descobri-las e a escola seja condizente com uma determinada escolha. É necessário libertar o aluno do jugo desnecessário de informações cristalizadas pelo tempo. Proporcionar projetos em que ele se sinta útil, incutir neles a ideia de que podem se quiserem, fazer a diferença.

Projetos que contemplem o respeito, a cidadania, o conhecimento, a socialização. Desta maneira, afirmamos nosso compromisso com a corrente transformadora da sociedade, pois é possível transformar o indivíduo e consequentemente a sociedade. Pois como dizia Florestan Fernandes “feita a revolução nas escolas, o povo a fará nas ruas”.

Omar de Camargo
decamargo.omar@gmail.com
- Técnico Químico
- Professor em Química.
- Pós Graduado em Química.

Ivan Claudio Guedes
icguedes@ig.com.br
- Geógrafo e Pedagogo. Especialista
em Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
- Articulista e palestrante.

sábado, 18 de maio de 2013

PORQUE O PROFESSOR PRECISA ESTUDAR?

Artigo originalmente publicado no Jornal Gazeta Valeparaibana, edição 66 - Maio 2013 - p.9.


Corintiano, palmeirense, são paulino, santista, flamenguista, gremista... Quando se pergunta ao cidadão “qual 
é o seu time?” Todo mundo sabe responder. Católico, evangélico, umbandista, kardecista, muçulmano... Quando perguntado sobre a religião, sempre está na ponta da língua. 

E o professor? 

Quando perguntam sobre qual filosofia da educação, ou qual “ideologia pedagógica” este representa? Ai faltam palavras. Palavras e conhecimento. Salvo os cursos de Pedagogia, os cursos de formação de professores não abordam essa discussão em sala de aula. Consequentemente os professores acabam por serem empurrados para a “filosofia dominante”: A da classe dominante! 

Luckesi (1994) apresentou três grandes correntes da Filosofia da Educação: A educação enquanto redentora da sociedade (acredita que a educação pode exercer domínio sobre a sociedade, compreendida como as pedagogias liberais); A educação enquanto reprodutora da sociedade (que a percebe como reprodutora de um modelo social vigente) e, a educação enquanto transformadora da sociedade (com uma postura crítica às duas anteriores e considerando o papel social e político da educação). 

Longe de querer esgotar o assunto, este breve comentário tem como objetivo trazer ao debate a falta de embasamento filosófico e pedagógico dos professores especialistas (e porque não também de pedagogos?) que atuam na educação básica e no ensino superior. Aprendemos a dar aula tomando como exemplo os nossos professores do passado, entretanto, salvo algumas exceções, os nossos professores também aprenderam com os seus professores do passado. 

A essa transmissão de valores, sem espaço para reflexões e debates filosóficos sobre a educação, costumamos chamar de “senso comum”. Então, pensando na formação de professores para trabalhar com a 
“massa”, somos, por natureza, reprodutores da sociedade. 

Frisamos que, se realmente queremos mudar o caminho da sociedade, devemos aproveitar os espaços de Hora Atividade, Planejamento e Replanejamento para discutir (com um pouco mais de embasamento) sobre 
“qual é a função da escola?”. Se acharmos que está tudo bem e que não precisamos fazer nada, então podemos continuar entregando os planejamentos iguaizinhos ao que recebemos do sistema público de ensino ou idênticos aos dos livros didáticos. É só copiar, mudar o ano e entregar. 

Discute-se sobre planejamento, sobre avaliação, sobre aprovação-reprovação, sobre regimento escolar, sobre normas de conduta, mas não se discute “qual é a função da escola”. 

Como prover o objetivo da escola (considerando que o questionamento anterior foi discutido e compreendido)? Além do mais, o próprio professor não se discute enquanto professor e perde-se no seu papel. O senso comum nos leva a práticas pedagógicas nem sempre corretas, mas que estão em uso e são transmitidas entre os entes constituintes de uma sociedade chamada corpo discente. 

A sociedade é, em muitos casos, acrítica, pois não discute, não questiona os rumos da educação propostos 
pelos governantes, mesmo porque foram formados dentro de uma escola reprodutora da própria sociedade, ou seja, que trabalha na manutenção dos status vigente, que por sua vez, atualmente, é proveniente de um sistema neoliberal cuja política é a subserviência das classes não dominantes. Então, o fato de se não discutir e não refletir sobre quais são os objetivos da escola, e mesmo dos professores, nos leva a reproduzir uma política educacional e outras políticas que não atendem aos anseios de uma sociedade menos subserviente, dotada de uma quase ampla liberdade de apropriação do conhecimento (via Internet). 

Aqui, talvez caiba um parêntesis sobre os alunos questionadores e tidos como indisciplinados pelo sistema 
atual. Será que o professor, cria da escola reprodutora, sabe lidar com esse tipo de comportamento? Ou é 
mais fácil excluir esse aluno para que ele não cause problema à sociedade? Lembre-se que o sistema não suporta pessoas críticas e questionadoras, pois isso é ameaça à classe dominante. 

Estamos nos aproximando de uma encruzilhada onde a apropriação dos saberes está diretamente relacionada com os objetivos a serem atingidos e nós, professores, gestores, pedagogos e outros, teremos que nos decidir para que lado deveremos andar e essa decisão só será possível de ser tomada se houver conhecimento dos processos pedagógicos que poderão ser úteis à transformação da sociedade. 

Por isso novamente frisamos a importância de se compreender o processo histórico em que se deu o desenvolvimento da escola e os seus diferentes objetivos. O professor neste processo é uma peça central, pois é o executor das tarefas pedagógicas. Sendo assim, se continuarmos trabalhando dentro de um processo “senso comum”, vamos continuar formando alunos “senso comum”, para uma sociedade “senso comum” executora de tarefas. 

Se considerarmos a escola como um aparato de controle de massas (tal como entende Althusser e Foucault), conceito esse que, ao que parece, está sendo usado pelos neoliberais com o intuito de produzir seres producentes, mas não questionadores, poderemos sim conduzir a massa a uma revolução; a revolução do saber, onde o conhecimento terá tanto valor quanto o mais fino ouro. 

O difícil é deixar ser um professor “senso comum”, pois fomos educados dessa forma, mas em algum momento esse ciclo deve ser quebrado, e só será quebrado se nos debruçarmos sobre os estudos filosóficos pedagógicos que tratam a essência dessa nossa profissão, por isso precisamos estudar mais, não só para apreender “metodologias inovadoras” ou “formas diversificadas de avaliações”, mas para saber porque estamos trabalhando em sala de aula. 

Omar de Camargo 
decamargo.omar@gmail.com 
- Técnico Químico 
– Professor em Química. 
- Pós Graduado em Química. 

Ivan Claudio Guedes 
icguedes@ig.com.br 
- Geógrafo e Pedagogo. Especialista em 
Gestão Ambiental, Mestre em Geociências e doutorando em Geologia. 
- Articulista e palestrante.


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